No jogo enunciativo, a relação entre os dêiticos e os sujeitos do discurso é fortemente intersubjetiva. Admitir o fundamento da subjetividade na prática da língua é situar o locutor como centro de referência de um sistema de coordenadas de pessoa, tempo e espaço. Qualquer elemento da língua só pode ser considerado dêitico se pressupuser essa ancoragem espaço-temporal e social em relação ao ponto de origem do sujeito da enunciação. Os dêiticos costuma ser descritos pelas seguintes características gerais: a) apresentam uma condição de subjetividade manifestada através do estabelecimento de um vínculo entre os participantes do discurso e a situação enunciativa; b) são indicadores de ostensão, ou seja, indicam os limites do objeto referido no espaço e no tempo de acordo com o posicionamento do sujeito enunciador no momento do ato comunicativo. Porém, há diferentes formas de manifestar o traço de ostensão e de remeter ao sujeito do discurso – o objetivo do presente trabalho é caracterizar diferentes situações de dêixis em textos de língua portuguesa no Brasil, pertencentes a gêneros variados, falados, escritos e hipertextuais. Este trabalho se organiza em três itens. No primeiro, definimos a noção de dêixis, de função dêitica e de expressão referencial dêitica. Privilegiamos não o falante como centro da enunciação, mas a relação entre os interlocutores, a interação, os contextos e as condições sociais da enunciação. No segundo, caracterizamos diferentes tipos de dêiticos com suas peculiaridades de uso em português brasileiro, comentando sobre possíveis graus de deiticidade. No terceiro, analisamos ocorrências de diversas funções dêiticas, problematizando a complexa relação entre dêixis e anáfora. Advogamos a ideia, fundada em Lyons (1977), de que a função ostensiva dêitica (que denomina como “componente dêitico”) é um processo mais básico que a anáfora, pois o mesmo princípio geral de localização que instrui o dêitico a conduzir a atenção do
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