MORFOLOGIA HISTÓRICA DO PORTUGUÊS ARCAICO: DA EMPIRIA À TEORIZAÇÃO Serão abordadas questões de morfologia derivacional e composicional da língua portuguesa no período arcaico – séculos XII ao XVI -, alinhadas à postura científico-epistemológica de Rosa Virgínia Mattos e Silva (in memoriam), para quem a observação e a descrição dos dados empíricos da língua tinham absoluta primazia em relação a qualquer posicionamento teórico adotado a priori. Resumo #1DO –ARIU AO –EIRO: QUANDO OS DADOS CONFRONTAM A TEORIA A polissemia do sufixo -eir- tem sido objeto de diversos estudos em língua portuguesa, quer no Brasil, quer em Portugal. E, embora muito se tenha dito, não se crê que estejam esgotadas as reflexões relacionadas às questões morfológicas e semânticas envolvidas nas operações genolexicais promovidas por esse afixo. Esse estudo pretende estabelecer uma reflexão acerca do caráter essencialmente adjetival do sufixo –ariu latino e discutir até que ponto a rede polissêmica de –eiro, seu descendente vernáculo, está relacionada às extensões semânticas de natureza metafórica e/ou mentonímica, como defendem estudos no âmbito da linguística cognitiva — Gonçalves & Almeida (2005), Botelho (2009), Pizzorno (2010), Soledade (2013) —. As proposições de análise da polissemia do sufixo -eir- até então ofertadas pelos linguistas pressupõem uma contiguidade linear, no sentido de que isso passou àquilo, e aquilo passou a outra coisa e assim por diante. Contudo, os dados analisados nesse estudo revelam que as relações entre os múltiplos sentidos de -eir- parecem se dar em uma rede mais complexa, em que a linearidade não faz qualquer sentido. Assim, partindo-se de ocorrências do sufixo –ariu, em textos latinos, e do sufixo –eiro, em textos do português arcaico, pretende-se investigar o percurso de transposição categorial — adjetivo > substantivo — dos nomes formados por esses sufixos, levantando um questionamento importante: a abundante rede polissêmica de –eiro não estaria, em grande medida, relacionada à flutuação categorial própria à natureza adjetival desse sufixo? Os dados revelam que não existe correspondência entre a explicação de base cognitivista aventada e a realidade empírica observada, uma vez que a deriva semântica proposta não corresponde à cronologia de uso do sufixo, nem incorpora o percurso das co-ocorrências efetivamente registradas nas diferentes classes semântico-derivacionais em que -eir- está presente. Resumo #2COMPOSTOS NPrepN NO PORTUGUÊS ARCAICO: ESTATUTO MORFOLÓGICO E SINTÁTICO Para Booij (2005, p. 83), estruturas NprepN como salle à manger ‘sala de jantar’ e chambre d’hôtes ‘casa de hóspedes’ constituem “constructional idioms”, ou seja, frases que equivalem, em termos funcionais, a um composto. Não seriam, em sentido estrito, palavras compostas. O principal argumento para considerar tais formas como frases, e não como compostos, diz respeito à pluralização interna, característica desse tipo de formações (fr. salles à manger, port. pais de família). Não nega, no entanto, o seu papel na expansão das unidades lexicais de uma língua. Ribeiro (2006), em sua dissertação de mestrado, inclui o padrão NprepN no âmbito dos compostos do português, posicionando-se contra algumas abordagens que consideram compostos apenas estruturas NprepN lexicalizadas. Em trabalho recente, Rio-Torto e Ribeiro (2012) apresentam um novo entendimento da tipologia de compostos do português, destinando aos de estrutura NprepN (também NprepV , VconjV , NA e AN ) a denominação de “compostos sintáticos”, por atenderem ao padrão frasal normal em português, como se pode observar em estrada de ferro e mestre de cerimônia (MATTOSO CÂMARA JR., 1979, p. 213). À luz da ideia de que são os compostos NprepN os que mais se assemelham a sintagmas nominais da sintaxe livre (BUSTOS GISBERT, 1986, p. 72), objetiva-se demonstrar o caráter mais sintático e mais marginal desse tipo de estrutura frente aos compostos morfológicos e morfossintáticos, a partir da descrição e análise de compostos NprepN do português arcaico, registrados por Santos (2009). Os dados indicam, preliminarmente, a variação no uso da preposição, que ora surge sozinha ora surge contraída com o artigo definido (seelo do chumbo ~ seelo de chumbo), ou ora apresenta-se sob outra forma (cavalleiro d’armas ~ cavalleiro ẽ armas), o que apontaria para uma menor fixidez sintática nesse tipo de estrutura. Resumo #3A PARASSÍNTESE LATO E STRICTO SENSU NA PRIMEIRA FASE DO PORTUGUÊS ARCAICO A partir da observação de fatos de língua da primeira fase do português arcaico (séculos XII-XIV), sob uma perspectiva histórico-descritivo-interpretativa (MATTOS E SILVA, 1998; MAIA, 2002), objetiva-se apresentar os resultados de uma proposta de sistematização geral dos processos parassintéticos stricto sensu (em que atuam concomitantemente na verbalização um formante prefixal e um sufixal) e lato sensu (em que não há o concurso de sufixos, mas apenas de um prefixo e de uma base léxica associada a uma vogal temática verbal e à desinência modo-temporal). Dada a coexistência empiricamente atestável de formações corradicais sinonímicas prefixadas ou não, postula-se que os prefixos envolvidos em operações parassintéticas não apresentam uma propriedade transcategorizadora, tendo exclusivamente um papel funcional de “dar corpo” aos produtos genolexicais surgidos, servindo de material formal utilizado pelo esquema de formação de palavras, tendo uma carga semântica geralmente vaga, imprecisa ou inexistente (PEREIRA, 2002; SANDMANN, 1997). Segundo Lopes (2013), em seu estudo sobre a prefixação na primeira fase do português arcaico, constata-se um desempenho pujante das operações parassintéticas nessa sincronia, perceptível em 333 produtos derivacionais, em que atuaram os prefixos a-1, com-, de-1, des-2, en-2, es-2, re- e tra-1 (e respectivos alomorfes), como nos seguintes vocábulos: abraçoulhos, concorda, defructarũ, descordias, emcardeceo, esforçousse, recordar, trasnoytare. Pelo conjunto dos dados perscrutados, observou-se uma discrepância na atuação da parassíntese lato e stricto sensu, já que esta última é bem menos vital no português arcaico do que aquela. Além disso, parece ser possível afirmar que, dos processos em que se faz presente um formante prefixal, a parassíntese lato sensu constitui o esquema derivacional latino que mais produtividade apresentava nos primórdios do vernáculo, o que se coaduna ao que outrora fora apontado por Menéndez Pidal (1904). | |
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