Este trabalho traz uma reflexão sobre a educação no campo, enraizada na dinâmica das lutas sociais, tendo como foco a concepção de educação proposta pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra. Essa proposta pedagógica apresenta um diálogo com o discurso pedagógico da escola soviética e com o discurso da escola popular de Paulo Freire. Assim, o objetivo deste trabalho é verificar como se constrói o interdiscurso na proposta de educação do MST, a partir da análise de dois textos que fazem parte da coletânea Dossiê MST Escola, documento que materializa o discurso do MST sobre uma “escola diferente” para a população do campo, mais especificamente para os assentamentos. Como fundamentação teórica para a análise adotam-se os pressupostos teóricos da Análise do Discurso de linha francesa, conforme os estudos de Maingueneau (2006, 2008), Orlandi (2007), Brandão (2004). Considera-se, segundo Charaudeau e Maingueneau (2006), que o interdiscurso é um jogo de reenvios entre discursos que tiveram um suporte textual, mas de cuja configuração não se tem memória. A análise da interdiscursividade na proposta de educação do MST, expressa nos textos do Dossiê MST Escola, revela um esforço do movimento em articular referenciais teóricos diferenciados para a construção de uma prática pedagógica não dogmática. Os resultados apontam que o MST, como todos os movimentos sociais que lutam pelos seus direitos, constitui-se como “sujeito político coletivo”, que se posiciona com uma formação discursiva própria, constituída de diferentes discursos, de acordo com as formações ideológicas em que se inscreve.
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