Os processos de palatalização nas línguas naturais relacionam-se com: (i) adiantamento da língua, (ii) alçamento da língua, (iii) espirantização. Na espirantização (iii), há uma adição da propriedade de estridência no segmento. Para Bhat (1974), em a palatalização dos segmentos é necessário duas condições básicas: (a) o contexto que engatilha o processo deverá ser um “contexto de palatalização”, isto é, os engatilhadores podem ser uma vogal anterior, uma aproximante palatal ou um segmento palatal; (b) o produto resultante do processo deverá ser um segmento palatal ou, em todo caso, um segmento com articulação secundária. Nesse sentido, os segmentos consonantais podem ser afetados de duas maneiras: (1) sofrer uma modificação em sua articulação primária; por exemplo, mudança de uma consoante plosiva velar /k/ para um segmento africado [tx], (2) somar uma articulação palatal secundária, deixando a articulação primária inalterada, como no caso da mudança de uma nasal labial /m/ para [mj]. Tanto (1) quanto (2) são encontrados na fonologia do Mehinaku, uma língua indígena da família arawák, falada por 260 pessoas que habitam as aldeias de Utawana e Uyaipiyuku, no Alto Xingu, Parque Indígena do Xingu, Estado de Mato Grosso.
Em esta comunicação, abordo a palatalização na língua mehinaku, processo que afeta o output dos fonemas consonantais: a labial /p/, a coronal /t/ e a dorsal /k/, a labiovelar /w/, além das nasais /m/ e /n/. A análise fundamenta-se em dados primários coletados em trabalho de campo junto aos falantes dessa língua. A interpretação e análise da palatalização seguem uma abordagem tipológica tendo como base Bhat (1974) e complementados com os aportes teóricos de Hume (1994), Clements e Hume (1995), Kim (2001), Hall e Mann (2003), Hall, Hamann e Zygs (2004), Hall e Hamann (2006) e Telfer (2004, 2006).
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