O nosso objetivo é mostrar que, anteriormente à identificação de ambiguidades prototípicas do nível das ocorrências das línguas, há uma ambiguidade inerente à linguagem. Teoricamente, aportamo-nos no modelo do linguista Antoine Culioli (1990, 1999, 1999b) e partimos do pressuposto de que ao encapsularmos o fenômeno da ambiguidade com problemas sintáticos e semânticos, estaremos nos satisfazendo, erroneamente, em trabalhar com relações constituídas e organizadas. O interessante é representar o estágio de cada constituição dessas relações e dessas categorias gramaticais em termos de operações concatenadas.
Das assunções, destaca-se a de que a linguagem nada tem de reprodutiva no que se refere ao referente: ela não o representa, ela constrói valores referenciais que só são (momentaneamente) estáveis em virtude do que a enunciação pode construir.
Como metodologia de estudo, analisamos, formalmente, os processos (operações de linguagem) que constituem os enunciados. Selecionamos um corpus que mostra que as unidades da língua são dotadas de uma heterogeneidade indiscutível e que lacunas vão sendo constante e inevitavelmente deixadas ao longo do processo de formalização de análise. Essas lacunas são o que a semântica formal convenciona classificar e, assim, estabelecer uma tipologia da ambiguidade.
Como resultado, vimos que falar em polissemia, contradição, polifuncionalidade, etc. é estar mais próximo do estudo de língua do que de linguagem e que estudar a significação é passar pela verificação da existência (ou não) de identidades semânticas que garantem uso e valor. E essa verificação se dá por meio da materialidade verbal (a atividade linguística), a qual, por sua vez, também confere sentido e valor.
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