PARTO E MATERNIDADE: EFEITOS DE SENTIDO ENTRE MÃES E FILHOS Nesta sessão, discutiremos a produção de sentidos relacionados ao parto e à maternidade na constituição de modos de significação da mulher, categoria considerada aqui enquanto objeto discursivo e ideológico, portanto, paradoxal. Nos filiamos à Análise de Discurso materialista, abordando os seguintes enfoques: a) militantes de parto humanizado; b) mulheres e parteiras quilombolas e c) mulheres em situação de violência conjugal. Os trabalhos correspondem a pesquisas desenvolvidas no âmbito do Grupo de Pesquisa - CNPq “Mulheres em Discurso” (Processo 487140/2013-3), do IEL/UNICAMP. Resumo #1O movimento de sutura e cicatriz na construção do dispositivo da análise de discurso: videobiografias do corpo e do parto Este artigo tem por objetivo apresentar reflexões sobre a construção do dispositivo teórico-analítico da Análise de Discurso, tendo em vista as contingências e necessidades de um corpus híbrido e multimodal, particularmente no que concerne à análise de videobiografias do parto, ou seja, vídeos em circulação no Youtube e que mostram o corpo da mulher e o momento do nascimento de uma criança. Estes vídeos, filiados ao “Movimento pelo parto humanizado”, textualizam a forma como o corpo da mulher é significado em nossa formação social, e dão visibilidade às disputas políticas que envolvem as relações de gênero. As análises, longe de apresentarem quaisquer possibilidades de aplicação direta de conceitos, dão-se a partir da construção de dispositivos particulares que respeitam as especificidades de cada objeto em análise. Apresentaremos, assim, o trajeto teórico que nos levou a propor a metáfora da sutura e da cicatriz em análises das práticas discursivas corporais de exposição do corpo e do parto, em uma configuração histórica pautada pelo individualismo e pelo narcisismo. Na formação social do Brasil contemporâneo, o embate de sentidos para os corpos das mulheres se decidem em um movimento tenso e contraditório de sutura e cicatriz: é, pois, na tentativa de suturar a falta própria à castração simbólica que a mulher textualiza seu corpo, através das formulações presentes nestes vídeos biográficos, produzindo cicatrizes que se desenham como marcas da ideologia e do inconsciente. Isto implica colocar a metáfora e a metonímia no cerne da questão sem perder de vista a historicidade que constitui este processo discursivo, através do exame das redes de memória inscritas nas imagens dos corpos que nele se desenham. Resumo #2Os partos da Dona Dulce: análise discursiva das falas das mulheres e da parteira da comunidade quilombola de Batuva - Guaraqueçaba - Paraná Em comunidades tradicionais de todo o Brasil, a figura da parteira se encontra presente nos relatos das mulheres sobre seus partos. No presente trabalho, propomos trazer o resultado parcial da nossa pesquisa intitulada Memórias de mulheres quilombolas: uma análise discursiva de entrevistas a mulheres de comunidades quilombolas de áreas rurais do município de Guaraqueçaba (Pr), que se desenvolve na Unicamp, com auxilio de bolsa de Pós-doutorado junior do CNPq. O mesmo trabalha juntamente com as mulheres da Comunidade quilombola de Batuva no município de Guaraqueçaba no Litoral do Estado do Paraná. O nosso objetivo é observar e analisar como a mulher agricultora da comunidade mencionada se diz e diz sobre a maternidade e o parto. Como ela significa e se significa nas falas sobre esses dois momentos da sua vida na sua relação com a própria constituição enquanto mulher de comunidade rural quilombola. Tomamos por base para nosso trabalho a afirmação de que a categoria de mulher pode ser pensada como um espaço de dizer e de se dizer mulher; e que, a partir dessa posição de sujeito, ela fala sobre seu parto e sua maternidade. O dizer-se mulher é, portanto, um espaço discursivo que se constitui na sua própria discursividade (Orlandi 2012). Diante disso, propomo-nos observar o funcionamento das redes de memória e dos processos de subjetivação e identificação relacionados às falas sobre o parto e a maternidade, a partir da análise de depoimentos obtidos em entrevistas feitas com estas mulheres. Resumo #3Mulher e maternidade: funcionamentos de efeitos de pré-construído na constituição da mulher-mãe em face da violência doméstica Sob a vertente teórica da Análise de Discurso materialista, a proposta deste trabalho (que consiste em um recorte de minha pesquisa de doutorado que se encontra em andamento), é pensar sobre o modo como as mulheres que vivem ou viveram um relacionamento conjugal perpetrado por situações de violência doméstica e familiar se significam em relação à maternidade e de que forma os sentidos de “mulher” passam pelos sentidos da maternidade. Para tanto, tomamos como material de análise relatos de mulheres que sofreram ou sofrem os efeitos dessa violência em suas relações afetivas na conjugalidade e que buscam atendimento em um Núcleo de Defesa e Convivência da Mulher, situado em um bairro de periferia na cidade de São Paulo. Trabalhando com recortes desses relatos, e olhando para a sua materialidade linguística, questionamo-nos: “Ser mulher equivale a ser mãe? Em uma relação conjugal, o desrespeito aos filhos é uma prática de violência contra a mulher? Atingir (física, econômica, afetivamente) os filhos é colocar a mulher em uma situação de violência?” Partindo dessas questões principais, volto meu olhar para o modo de funcionamento do interdiscurso, por seus efeitos de pré-construído, naquilo que se refere à constituição da mulher-mãe – tomada aqui enquanto um objeto discursivo e ideológico. Buscamos observar o funcionamento deste efeito em relação ao objeto discursivo “mulher” e às suas formas de significação a partir dos discursos sobre a maternidade. Metodologicamente, analisamos, nessas materialidades, o modo como, nesses relatos, aparecem colocados como evidência discursos de que "ser mulher é ser mãe". Nos questionamentos que formulamos, as análises parciais sinalizam para uma articulação dos sentidos de mulher aos sentidos da maternidade, apontando, assim, para um imbricamento entre feminilidade e maternidade. | |
527 |