Este trabalho pretende expandir os estudos sobre a variação no quadro pronominal do português brasileiro (doravante, PB), especificamente no que concerne à segunda pessoa do singular. Com a emergência da forma você, observa-se uma série de alterações linguísticas na representação da “pessoa com quem se fala”; o você traz consigo formas oblíquas de 3ª pessoa para o espaço de representação da 2ª pessoa, que atuam na posições de complemento ao lado das formas do paradigma do pronome tu. Como resultado, passa a haver um grande número de formas variantes na realização do complemento dativo, focalizado neste estudo: os clíticos te e lhe, os sintagmas preposicionados a ti, para ti, a você e para você, e ainda o objeto nulo. Denomina-se dativo todo complemento que recebe o papel temático de alvo ou fonte da ação verbal, é cliticizável e admite as preposições a/para em estruturas de sintagma preposicionado. Objetiva-se discutir os fatores linguísticos e extralinguísticos que atuam no (des)favorecimento das estratégias dativas no período em que o você adquire estatuto de pronome pessoal na língua escrita do PB (por volta dos anos 1930; cf. DUARTE, 1993), assim como nos períodos precedentes e seguintes. Analisa-se, ainda, a combinação do clítico dativo te com o sujeito você em construções como “Você leu o livro que eu te dei?”. Tal combinação, tratada pela gramática tradicional como ruptura da uniformidade de tratamento, é uma construção amplamente aceita e sem estigma social no PB atual. Como corpus de análise, utilizam-se cartas particulares escritas por cariocas e fluminenses no período de um século (1880-1980). Concilia-se, neste estudo, a sociolinguística variacionista laboviana (LABOV, 1994) com a sociolinguística histórica (HERNÀNDEX-CAMPOY & CONDE SILVESTRE, 2012) para a análise e a interpretação dos dados. O programa estatístico GOLDVARB-X é a ferramenta utilizada para a análise quantitativa dos dados.
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