Propomo-nos verificar a pertinência da hipótese da hipótese sobre a existência de um inter-
relação entre os conceitos de subversão de gêneros, cenografia e posicionamento, a partir do
estudo do corpus de Lucas 10: 25-37. Nesse caso, um dos enunciadores assume e busca a
adesão a um modo de ser, através de uma oposição entre um diálogo racional e um diálogo
emocional, instaurada por meio de um investimento genérico específico. Cabe-nos esclarecer
que procederemos nossa discussão sob a perspectiva da Análise do Discurso, na linha de
Maingueneau, que associa uma organização textual e um lugar social determinados,
relacionando-se, portanto, de maneira privilegiada com os gêneros do discurso. Nosso foco
incidirá na análise da mudança do curso da enunciação, como uma possibilidade de subversão
genérica, promovida pelo co-enunciador, com a finalidade de marcar seu posicionamento
ético, a partir de sinais emitidos pelo seu ouvinte. Num dado ponto da radicalização de um
diálogo tipicamente racional, surgem-nos as seguintes questões: realmente há uma subversão
do gêneros dialético da disputa, com a instalação de um diálogo emocional, por meio da
parábola? Ocorre, de fato, uma quebra do contrato de comunicação? A resposta de um dos
enunciadores, fornecida não por meio de argumentações e refutações – típicos da disputa
dialética – mas sim por meio de um discurso parabólico constitui uma forma de organização
diferente da anterior? Essa forma apresenta marcas formais características? Existem
elementos articulados para constituir uma cena de enunciação ou, mais especificamente, uma
cenografia que, como tal, não é um simples alicerce, uma maneira de transmitir “conteúdos”,
mas o centro em torno do qual gira a enunciação? Tornar-se-ia, então, o gênero da parábola
um legítimo componente do texto? A tentativa de respostas a essas e outras questões
nortearão nossas reflexões.
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