DISCURSOS E PROCESSOS DE SUBJETIVAÇÃO CONTEMPORÂNEOS Esta sessão de comunicações coordenadas pretende discutir, a partir da análise de materiais discursivos, processos de subjetivação que se dão na contemporaneidade. O quadro teórico que fundamenta as análises é o da Análise de Discurso, na articulação entre os campos da Linguística, do Materialismo Histórico e da Psicanálise. Os trabalhos partem de três eixos para discutir a relação entre sujeitos e discursos: a questão do testemunho em sua relação com o indizível, a questão do cinismo como forma ideológica e a questão da autoria em relação com o discurso da produtividade científica. Resumo #1DESIGNAÇÕES PARADOXAIS E AUTORIA Nesta comunicação almejamos explorar os efeitos do discurso da produtividade científica e, principalmente, das formas de representação da temporalidade do fazer científico, sobre os processos de subjetivação que constituem a autoria acadêmica. O que é ser um autor hoje no âmbito acadêmico-científico? Como se configura essa função-autor nas atuais condições de produção? Como a circulação dessa escrita afeta o seu funcionamento e a legitimidade do nome de autor ao qual aparece vinculada? As análises se organizam em torno da emergência da designação “autoplágio” em códigos de boas práticas científicas e em normas editoriais de periódicos científicos, em conjunto com outras designações relacionadas como: “salami slicing”, “publicação redundante” e “publicação duplicada”. Essas designações atribuídas a práticas atuais de autoria acadêmico-científica sinalizam, para nós, uma nova inflexão nos processos de subjetivação e podem ser interpretadas a partir do impacto na função-autor das determinações impostas pelo funcionamento do nome de autor e seus parâmetros mensuráveis, produzindo uma indistinção entre estes dois funcionamentos discursivos. Desenvolvemos uma reflexão sobre essas noções e descrevemos esta particular inflexão da função-autor pelos desígnios do nome de autor como um processo de subjetivação no cinismo, que caracterizamos, ao mesmo tempo, como um efeito dos sentidos dominantes do discurso da produtividade científica e como um gesto de resistência a esse mesmo discurso. Resumo #2Testemunho: entre o dizível e o indizível A noção de testemunho circula em diferentes campos do conhecimento. Em seu aspecto jurídico, testemunho é compreendido como um depoimento dado a fim de negar, confirmar ou demonstrar provas em um processo. A crítica literária afirma que “vivemos a era dos testemunhos”, e tem tomado como objeto a literatura de testemunho, buscando cernir, no âmbito do estético o conceito de testemunho vinculado ao estatuto de prova de veracidade histórica. Finalmente, no campo da psicanálise, a noção de testemunho se encontra vinculada à possibilidade de transmissão da experiência do inconsciente. Nos três campos de conhecimento mencionados, depreende-se um ponto em comum: dar um testemunho é transmitir, por via oral ou escrita, uma dada experiência subjetiva, sobretudo as experiências que portam um relato traumático. Tendo essa característica sobre o testemunho no horizonte de reflexão, neste trabalho pretende-se apresentar uma discussão, inscrita no campo teórico da análise do discurso, sobre o jogo que se constitui nas fronteiras do dizível e do indizível, fronteiras que se inscrevem no testemunho. O título desse trabalho aponta para uma impossibilidade de se falar de um “todo vivido” uma vez que a linguagem é insuficiente e fracassa na tentativa de dar conta do real da experiência traumática. Indaga-se a respeito do caráter testemunhal dos relatos/depoimentos de experiências traumáticas. O que faria de um relato um testemunho? Qualquer relato seria um testemunho? Não se trata de atribuir valor testemunhal a quem tem muita vivência em determinada situação; não se trata de uma memória para ser propagada. Porém, nem tudo o que é vivido é da ordem da experiência de um acontecimento, experiência em termos analíticos como sendo “aquilo que não se imagina” (cf J. Lacan, 1998) A análise incidirá sobre um corpus constituído por depoimentos de mulheres que foram agredidas por seus maridos. Resumo #3O CINISMO COMO PRÁTICA IDEOLÓGICA Muitas reflexões têm insistido no fato de que, para compreender a estrutura da sociedade contemporânea, é preciso levar em conta o caráter cínico de seu funcionamento. A partir dessas reflexões, buscaremos orientar nosso trabalho em torno de dois eixos: de um ponto de vista teórico, este trabalho pretende colocar em relação tais reflexões contemporâneas sobre a relação entre discurso, cinismo e ideologia, na busca de uma compreensão dos processos de constituição, formulação e circulação dos efeitos de sentido em nossa formação social. A hipótese de trabalho é a de que se o cinismo em sua vertente grega representava a forma de resistência à ideologia dominante pela exposição desta ao ridículo, o cinismo contemporâneo funcionaria de maneira diversa, já que ele não extrairia do ridículo próprio ao funcionamento da ideologia dominante a despedida do sentido que caracterizaria uma nova posição. Analiticamente, o que se pretende é apontar para procedimentos de análise que possam dar conta de produzir uma compreensão dos mecanismos de funcionamento discursivo do cinismo, na sua relação com os efeitos de pré-construído e de sustentação, tal como os formula Michel Pêcheux, pensando, de maneira mais geral, o funcionamento da ideologia (em sua forma cínica) em materialidades discursivas diversas. | |
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