Este trabalho discute a concordância de gênero em construções binominais em português brasileiro que seguem o esquema DP1-de-DP2 e contém epítetos ou palavrões. A interface morfologia-sintaxe é abordada com base no paradigma e metodologia da gramática gerativa/ minimalismo, utilizando-se das distinções entre traços interpretáveis e não-interpretáveis e traços com/sem valor (‘valued/unvalued’) e dos mecânismos de validação (‘valuation’) e apagamento de traços no decorrer da derivação sintática. A distinção entre gênero natural e gênero gramatical discutida aqui contribui para a tipologia dos traços morfológicos e provê evidência para a existência de traços não interpretáveis mas com valor (em favor de Bošković 2009, 2010 e contra Chomsky 2001 para quem todos e apenas os traços não-interpretáveis são sem valor).
Em construções binominais com palavões, a concordância entre DP1 e DP2 é opcional se o substantivo em DP2 possuir gênero natural – pessoas e animais – (a merda do João/ o merda do João), mas não há concordância entre DP1 e DP2 se o substantivo possuir gênero gramatical – objectos – (a merda do computador/ *o merda do computador). Seguindo Bošković 2009, 2010, assumo que o traço de gênero natural dos substantivos tem valor e é interpretável enquanto o traço de gênero gramatical dos substantivos tem valor, mas não é interpretável. O traço de gênero dos determinantes não é interpretável, não tem valor e precisa ser validado. No exemplo acima, o traço de gênero de computador não é interpretável, então depois que o traço de gênero do determinante do DP2 é validado, os traços não-interpretáveis são apagados. Se o DP1 sonda (‘probe’) o DP2, o traço de gênero do substantivo computador já não está disponível. Isto é diferente do caso do DP2 que contém o substantivo João, pois o traço de gênero natural é interpretável e não pode ser apagado.
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