Estudos sobre os possessivos no português brasileiro coloquial demonstram que o uso da forma "dele" tem apresentado alta frequência para referentes de terceira pessoa (PERINI, 1985; CERQUEIRA, 2008). Esse uso tem como causa a alteração no paradigma pronominal em consequência da gramaticalização de "você", que introduziu a forma correlacionada de possessivo "seu", ampliando os possíveis candidatos a referente. A forma "seu" tornou-se categórica para referentes de segunda pessoa do singular – "você" (ABRAÇADO, 2000), e a forma "dele" constituiu-se como opção no caso de referente de terceira pessoa, principalmente em contextos orais. Estudos demonstram que alguns traços semânticos do referente motivam a escolha de uma ou outra forma. Se o referente é genérico ou [-específico], opta-se pelo "seu"; se [+específico], seleciona-se o "dele". (MULLER, 1997; OLIVEIRA E SILVA, 1984,1991). Este trabalho propõe identificar as variáveis linguísticas que favorecem o uso de uma ou outra variante, em um "corpus" constituído de correspondências manuscritas por professores primários na Bahia do século XIX. As variáveis linguísticas selecionadas para análise foram as seguintes: [+/-humano], [+/-específico], [+/-definido]. Os resultados demonstram que, embora a maior frequência tenha sido da forma "seu", identificaram-se ocorrências de uso da forma "dele", indicando as tendências que se expressam no português brasileiro contemporâneo.
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