POSIÇÃO DOS CLÍTICOS NO XADREZ LINGUÍSTICO DA VIRADA DO SÉCULO XX A presente comunicação coordenada insere-se no âmbito da História Social da Língua e tem por enfoque temporal a Primeira República. A análise visa a confrontar a escrita de professores de língua portuguesa dos dois primeiros ginásios estaduais paulistas, profissionais renomados e com obras publicadas em sua área de atuação, com a de um escritor e editor, tendo por norte um mesmo contexto sintático: a colocação pronominal. Resumo #1Modelando padrões cultos: infinitivas preposicionadas A colocação pronominal não é categorizada em contexto de infinitivas preposicionadas, apesar da variação a que está sujeita. O que sugere que a colocação pronominal, seja próclise seja ênclise, nesse contexto, é uma prática linguística que não desperta preconceito. Não obstante, pode ser um indicador de distinção social. Analisando cartas pessoais de literatos ao longo do século XIX, Oliveira (2011) observou que o PE opta por um sistema dual nas infinitivas preposicionadas, em que a ênclise é categórica no ambiente da preposição “a” e a próclise é empregada na presença das demais preposições. O PB, além de não manifestar a especialização lusitana, sai de um sistema nomeadamente enclítico para um sistema proclítico, independentemente do tipo de preposição. Entretanto, o perfil de mudança linguística que essa alteração na colocação pronominal evoca não se repete nas cartas pessoais de intelectuais, nas quais o índice de ênclise continua em ascendência, denunciando que essa colocação é índice social da elite intelectual (Oliveira, 2013). Este trabalho analisa a colocação pronominal em infinitivas preposicionadas coletadas das cartas pessoais de Monteiro Lobato, com o objetivo de averiguar se a ênclise deve ser debitada ao bacharelado em Direito, formação dos autores românticos, mas não dos literatos que optaram pela próclise. Resumo #2Infinitivas preposicionadas e padrão culto no Ginásio de Campinas Estudos recentes têm correlacionado essa variação com o tipo de preposição empregado. Comparando as variedades brasileira e europeia, em corpora de escritores oitocentistas, Oliveira (2011) observa, no PE, a especialização da ênclise no ambiente da preposição “a” e próclise com as preposições “de” e “para”. Já a produção dos autores românticos brasileiros se revelou predominantemente enclítica para todas as preposições, aproximando-se do português clássico. O padrão enclítico também é atestado por Santos Silva (2012) na escrita de intelectuais paulistas republicanos do final do século XIX, e por Coan (2013), em estudo semelhante sobre a produção de Júlio Ribeiro e Coelho Neto. Estes têm em comum a atuação na literatura, na imprensa e no magistério de português no Colégio Culto à Ciência – que, na década de 1890, passou a ser o Ginásio Estadual de Campinas. A presente comunicação investiga a colocação pronominal em infinitivas preposicionadas em ofícios produzidos pelo Ginásio de Campinas, no período de 1896 a 1910. O objetivo é examinar se o padrão linguístico culto dos ofícios se aproxima do modelo dos românticos brasileiros ou do modelo do PE, considerando-se como fatores condicionantes da posição do clítico o tipo de preposição, o tipo do pronome e a presença de atratores. Verificamos também se os ofícios revelam apenas construções formulaicas, como se poderia esperar da redação burocrática, ou se há variação na posição do clítico. Os resultados serão cotejados com aqueles obtidos no exame de textos produzidos pelos docentes do colégio e publicados na imprensa. Sob o enfoque da História Social da Língua Portuguesa, o trabalho ainda busca dialogar com outras investigações sobre o fenômeno, as instituições escolares paulistas e a elite intelectual na passagem do século XIX ao XX. Resumo #3O uso do clítico na escrita culta paulista do início do século XX Com o surgimento de instituições de ensino e academias, organizava-se uma intelectualidade local, emergiam normas cultas distintivas das classes mais educadas, levantavam-se polêmicas em torno de questões linguísticas, nas quais a posição do clítico era tema recorrente. Partindo da correlação entre fatos sociais e de língua da perspectiva da Sociolinguística Variacionista, apoiando-nos ainda na proposta da História Social, que visa compreender a história a partir das práticas culturais, analisaremos a posição do clítico em textos produzidos por Sílvio de Almeida, membro da Academia Paulista de Letras e professor do Ginásio da Capital do Estado de São Paulo, instituição voltada para a preparação de jovens rapazes para o ensino superior. Serão selecionadas amostras em atas da Congregação, de caráter documental, e em artigos publicados em jornal. Com base nos resultados de Oliveira (2011) e Santos Silva (2012), nos voltaremos especificamente para orações infinitivas preposicionadas, contexto sintático que, por não ser foco das discussões da época a respeito do uso do clítico, era permeável a usos socialmente marcados que ficavam fora do alcance da estigmatização. A colocação do clítico na escrita de intelectuais da época, distanciada do português europeu (com ênclise diante da preposição a) e do vernáculo (que passou a apresentar-se cada vez mais proclítico), privilegiava o uso de ênclise com todas as preposições, chegando à ênclise generalizada na escrita de alguns autores. Diante de tais pressupostos linguísticos e sociais, pretendemos observar se fontes de distintas finalidade e circulação contextualizam diferentes usos do clítico, bem como, pela contraposição com os resultados de outros estudos, depreender da variação identificada determinada filiação linguística remetente ao português vernáculo, ao lusitano ou à própria intelectualidade paulista. | |
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