As políticas educacionais promoveram mudanças que ocasionaram a democratização do acesso à educação superior e modificaram o perfil dos universitários. Há estudantes de diferentes origens sociais que contrapõem-se a imagem idealizada do “estudante-leitor” que fazia parte de uma elite intelectual. Os dados do INAF indicam que 38% dos universitários não têm nível pleno de alfabetismo funcional. Mas quais as políticas educacionais para sanar esse “problema”? Como os estudos sobre letramento e cultura escrita podem nos fazer refletir melhor sobre a realidade dos alunos brasileiros? A partir dessas considerações, o objetivo dessa pesquisa é analisar os diferentes modos pelos quais estudantes universitários provenientes de classes populares adentram a cultura escrita e as suas implicações para o letramento acadêmico. Parte-se de uma perspectiva que leva em conta os conceitos de letramento,capital cultural, herança cultural e cultura escrita (Bourdieu, 2007; Hebrard, 2007, Soares, 2010). A pesquisa foi realizada a partir de um estudo de caso de uma aluna do curso de um curso de ciências humanas da Universidade Federal de Santa Catarina. A aluna entrou por cotas de negros na universidade. Sua escrita caracteriza-se por “erros” que são decorrentes do apoio na oralidade e de representações múltiplas. Ou seja, ela teve uma má alfabetização. Apesar disso, ingressou na universidade. Em busca de uma causa orgânica para o problema recebeu também o diagnóstico de Distúrbio do Processamento Auditivo Central. Embora a universidade trate todos de forma igualitária, os estudantes são avaliados a partir de uma escala de valores de uma classe privilegiada. Os fracassos estão mais vinculados aos estudantes que não herdam o bem cultural, nesse caso, a cultura escrita. Esse estudo destaca a inabilidade da maioria docente para lidar com diferenças linguísticas e socioculturais no ambiente universitário atual. Assim, a mesma universidade que promove o ingresso dos estudantes também promove sua exclusão.
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