A CONFIGURAÇÃO DIATÓPICA DO SISTEMA DE TRATAMENTO DO PORTUGUÊS BRASILEIRO A proposta da sessão é discutir as diferenças regionais quanto à implementação do inovador 'você' no quadro pronominal do PB. A partir do século XIX, 'você' passou a coexistir nos mesmos contextos de 'tu'. Os valores sociais das duas formas não se perderam completamente no século XX, o que acarretou a formação de subsistemas diatopicamente distintos no PB. Tal formação, entretanto, afetou a posição de sujeito, mas não necessariamente os complementos verbais e os possessivos como pretendemos mostrar. Nossa ênfase centra-se nas variantes de 2P (acusativo, dativo, oblíquo e genitivo). Resumo #1 A entrada de você e a correlação entre sujeito e outras funções no Rio de Janeiro e em Minas Gerais O objetivo do trabalho é correlacionar os padrões de variação entre tu e você na função de sujeito de 2P – (i) você; (ii) tu; (iii) você~tu – à expressão de tais pronomes em contextos sintáticos de complementação acusativa (te~você~lhe~o/a), dativa (te~lhe~para/a você) e oblíqua (prep. você~ prep. ti/contigo). Para tanto pretendemos analisar amostras de cartas pessoais escritas em dois estados da região sudeste que apresentam atualmente comportamento distinto quanto ao sistema de tratamento de 2P. De um lado, há o Rio de Janeiro em que vigora o subsistema (iii) você~tu e, de outro, temos Minas Gerais onde predomina o subsistema (i) você na posição de sujeito. O intuito é estabelecer uma análise comparativa observando como se configurava, nos dados dos séculos XIX e XX, o comportamento das estratégias de 2P tanto na posição de sujeito quanto na de complemento verbal. O corpus do Rio de Janeiro é composto pelas cartas que fazem parte do corpus compartilhado PHPB – RJ (http://www.letras.ufrj.br/laborhistorico/). Trata-se de cartas pertencentes aos Acervos Cupertino do Amaral (1870-1890), Land Avelar (1907-1917), Afonso Penna (1896-1926), Oswaldo Cruz (1889-1915) e entre o casal de noivos Jaime e Maria (1936-1937). O corpus referente a Minas Gerais é constituído por cartas pessoais trocadas entre familiares e amigos, no período de 1850 a 1990. As cartas do Fundo Barão de Carmagos foram editadas por Chaves (2006) e as cartas trocadas entre Henriqueta Lisboa e os seus familiares e poetas-amigos foram editadas por Rumeu. Como aparato teórico-metodológico, conciliamos a sociolinguística variacionista laboviana (WEINREICH, LABOV & HERZOG, 1968) com a sociolinguística histórica (HERNÀNDEX-CAMPOY & CONDE SILVESTRE, 2012) para o tratamento dos dados e a interpretação dos resultados obtidos. O programa estatístico GOLDVARB-X será a ferramenta utilizada para a análise quantitativa dos dados. Resumo #2De-possessivos no português brasileiro: o caso da segunda pessoa Na história do português, em função dos rearranjos operados no sistema pronominal, o quadro de possessivos simples é complexificado pela inserção de novas formas possessivas: os de-possessivos. No português brasileiro (PB), no caso da 2PL, o possessivo seu parece ter substituído o possessivo original vosso e coexiste hoje, ainda que sem tanta representatividade, com o novo de-possessivo de vocês (Mendes dos Santos 2013). A 2SG, por sua vez, mostra variação entre as formas simples teu e seu e o novo de-possessivo de você que começa a ser, timidamente, registrado (Guedes 2013). De modo a investigar, neste trabalho, como ocorre o processo de implementação dos novos de-possessivos de 2P no PB, partimos de uma perspectiva teórica formal (Chomsky 1995; Lightfoot 1991; Kroch 2001) e utilizamos como corpora textos brasileiros, escritos e orais, dos séculos XIX ao XXI (Davies e Ferreira 2006; Vieira, Brandão e Mota 2008). Os resultados mostram que o processo de inserção dos novos de-possessivos de 2P pressupõe um estágio inicial em que tais formas não são originalmente possessivas, mas podem receber uma leitura possessiva. Essas construções de ambiguidade seriam as responsáveis pela reanálise de sintagmas preposicionais [de + OBL] em sintagmas genitivos. Esse processo, no entanto, parece estar mais acelerado na 2PL (de vocês) do que na 2SG (de você), em que observamos restrições sintáticas que bloqueiam a sua implementação. Argumentamos que a especificação nos traços-phi (pessoa e número) dos possessivos simples está diretamente relacionada à emergência de um de-possessivo correspondente. Assim, a existência da forma teu no paradigma da 2SG parece bloquear a mudança, uma vez que o possessivo original de 2SG garante a legibilidade do traço de 2P (Béjar, 2008). O mesmo não ocorre com o de-possessivo de vocês, devido à ausência de um traço mais especificado de pessoa na forma seu. Resumo #3A expressão da segunda pessoa em cartas pessoais do sul e do nordeste brasileiro: diferentes sistemas ou gramáticas em competição? Apresentamos, nesta comunicação, uma análise das formas de segunda pessoa do singular em uma amostra extraída de cartas pessoais das regiões sul (Santa Catarina) e nordeste (Bahia e Rio Grande do Norte) dos séculos XIX e XX. Considerando a proposta de Lopes e Cavalcante (2011) de que, no que se refere ao tratamento de segunda pessoa na diacronia do Português Brasileiro, há três subsistemas – (i) de você exclusivo; (ii) de tu exclusivo; e (iii) de alternância você~tu –, nosso objetivo e mapear os padrões empíricos referentes ao uso das formas de tu e de você em diferentes contextos sintáticos, buscando diagnosticar qual (ou quais) dos subsistemas se manifesta(m) nas regiões sul e nordeste (e se há diferenças nos padrões atestados nessas regiões). O corpus está assim estruturado: (1) da Bahia, serão utilizadas exclusivamente cartas de baianos retiradas entre os remetentes dos 6 acervos dos séculos XIX (CARNEIRO, 2005; 2011) e XX (CARNEIRO; FAGUNDES; ALMEIDA, 2011); (2) do Rio Grande do Norte, serão utilizadas 146 cartas particulares do século XX; (3) de Santa Catarina, serão utilizadas 120 cartas escritas por catarinenses nos séculos XIX e XX. Seguindo um modelo teórico de mudança sintática que concilia a observação empírica (WEINREICH; LABOV; HERZOG, 1968; LABOV, 1972) com uma interpretação teórica (CHOMSKY, 1995), conforme propõe Kroch (1989), nossa proposta é a de que os diferentes padrões empíricos atestados no sul e nordeste brasileiro (em termos de diferentes sistemas, nos termos de Lopes e Cavalcante, 2011) refletem, no curso dos séculos XIX e XX, a competição entre diferentes gramáticas do português: a do Português Brasileiro em que os traços-phi (pessoa e número) de P2 são menos especificados e a do Português Europeu em que P2 apresenta traços-phi mais especificados. | |
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