Partimos da afirmação da Nota sobre o discurso, contida nos Escritos de Linguística Geral de Saussure, em que se lê que a língua só é criada em vista do discurso. Essa afirmação estaria apontando para o fato de que, embora distintas, língua e fala não se separam. Pretendemos mostrar que os dois conceitos são indissociáveis, são uma coisa só e, mais do que isso, que a língua contém o discurso, ou seja, que o discurso já é previsto na própria natureza da língua. Fundamentamos nossa reflexão principalmente no fato de que, para a apreensão da língua, é necessário que se analise o discurso, para, a partir dele, se chegar à compreensão do funcionamento da língua. Essa compreensão indica, por exemplo, que é pela noção de relação entre signos que o sentido é construído no discurso. As significações dos signos isolados da língua têm em sua natureza a propriedade, que Ducrot denomina “orientação argumentativa”, de apontar para combinações possíveis e impossíveis para a produção de sentidos no discurso. É assim que a língua entra em ação como discurso. Esse é o caminho que leva ao discurso. Do ponto de vista enunciativo, os signos linguísticos indicativos de pessoa, tempo e espaço são distintos de outros signos, pela diversidade de natureza e de funcionamento que apresentam, porque são tributários da atividade de discurso. Argumentos como esses nos levam a inferir que a língua, como sistema de signos, pela heterogeneidade de sua natureza, já contém nela o discurso. Diríamos, então, que língua e discurso são indissociáveis.
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