S3. Análise do Discurso (Comunicações coordenadas)

O SUJEITO DO DISCURSO NA CONTEMPORANEIDADE: NAS MOVÊNCIAS TECNOLÓGICAS
DANIELA GIORGENON (danielagiorgenon@gmail.com)
FFCLRP/USP - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo

Nessa mesa coordenada, pretendemos abordar a concepção de sujeito como posição discursiva, a partir dos pressupostos teórico e metodológico da Análise de Discurso (AD) elaborada por Michel Pêcheux. Prosseguindo seus passos inquietantes pelo campo da informática e da tecnologia, como pesquisadores deste campo discursivo, lançamo-nos a escutar as posições inscritas nas malhas do digital, interpretando os sentidos ideologicamente estabilizados nas movências tecnológicas. Trabalhamos com recortes discursivos pinçados da materialidade eletrônica e fílmica, sentidos do/sobre o sujeito na/da contemporaneidade.

Resumo #1

Homofobia no (ciber)espaço: dizeres do/sobre o homossexual
Gustavo Grandini Bastos (gugrandini@uol.com.br)

Ancorados na Análise do Discurso de filiação francesa, tendo como principal articulador o francês Michel Pêcheux (2009), intenta-se com esta pesquisa trabalhar com discursos e sentidos acerca da homofobia postos em circulação em blogs do tipo diário de gays brasileiros. O corpus da pesquisa é composto por recortes provenientes de quatro blogs, obtidos por meio de uma criteriosa seleção do material, inicialmente composto por quarenta e cinco blogs, sendo que os recortes foram realizados com base em critérios estabelecidos durante o processo de realização da pesquisa, tais como: ser escrito por brasileiros e possuir comentários acerca da homofobia. A multiplicidade marca os discursos acerca da homossexualidade em nossa sociedade, já que não existe ‘o’ sentido único e fechado e que os sujeitos, em suas variadas posições discursivas, filiados a determinadas formações discursivas, afetados pelas condições de produção e memória discursiva, são interpelados pela ideologia. Ela constitui-se no mecanismo de tornar evidentes certos sentidos e estranhos outros, mas isso não significa que o sentido é qualquer um, atribuído de forma aleatória, mas determinado historicamente. O ciberespaço propicia o contato do sujeito-navegador com diversas redes de dizer, espaços opostos, contraditórios e similares que continuamente se unem ou desvinculam em que é possível ver a tensão permeando a constituição discursiva. Observa-se que atestamos a não confluência de dizeres sobre a homofobia, visto que foram encontradas diversas marcas que expuseram o preconceito contra os homossexuais postas em discurso por gays que filiam-se a outras formações e posições discursivas, o que resulta em outras formas possíveis de dizer e pensar a homofobia na vida dos sujeitos.

Resumo #2

Paráfrases da memória grega antiga no cinema
João Flávio de Almeida (joaoflaviodealmeida@gmail.com)

Jean-Louis Durand escreveu o capítulo “Memória Grega” no livro “Papel da Memória” (ACHARD, 1999). O autor centra-se no grande problema da cultura grega quando esta se fecha demasiadamente em si mesma, não permitindo que novos acontecimentos entrassem para a memória. A cultura grega pressupunha cinco idades para os homens: Ouro, Prata, Bronze, Heróis e Ferro (STEPHANIDES, 2001), sendo que a idade dos heróis e semideuses fora a mais frutífera em gerar acontecimentos que deveriam entrar para a memória, eternizando-se em honra dos heróis e dos deuses. No entanto a cultura grega acreditava que os deuses não amavam a última idade dos homens, e por isso se retiraram para o Olimpo, e consequentemente a idade de ferro deveria se limitar a cultuar os acontecimentos, os heróis e os deuses da idade dos Heróis (NAGY, 2013). De fato, Aquiles, Heitor, Hércules e outros são nomes conhecidos até nossos dias, e o próprio conceito de Herói chegou até nós, mas parafraseado. A cultura grega, que cultuava um período muito específico de sua suposta história, fez, através de Homero, uma das mais brilhantes e eficientes inserções de acontecimentos na memória universal, memória esta muitas vezes resgatada por diferentes memórias discursivas em diferentes Formações Discursivas. Este texto tem por intenção analisar de que forma o discurso moderno-capitalista se apropria da memória grega quando cria heróis como o Super-Homem, e os lança no cinema na condição de porta voz de um discurso nacionalista americano, pregando bons costumes, honestidade e trabalho duro, além de definir a função do herói não como promotor da igualdade e do bem estar coletivo, mas sim como combatente do crime. Esta definição de herói trata-se de uma grosseira paráfrase do herói grego antigo, uma apropriação política e ideológica usada no assujeitamento capitalista-produtor-consumidor.

Resumo #3

Sujeito, corpo e rede eletrônica: sentidos da/na contemporaneidade
Daniela Giorgenon (danielagiorgenon@gmail.com)

Em pesquisa de doutorado orientada pela Profa. Dra. Lucília Maria Abrahão e Sousa, objetivamos estudar sujeito, corpo e rede eletrônica, desvelando sentidos em torno do significante “conexão”. Temos pensado sobre a relação do sujeito e corpo com as tecnologias de conexão a rede eletrônica, pois temos escutado sentidos que potencializam sujeito e corpo, a partir deste ato, e também os imbuem de déficit. Para ampararmos nossa escuta a esta relação, assinalamos que, se no contexto do século XX, na obra “Mal estar na civilização”, Freud (1930/1996) apontava o instrumento tecnológico sendo tomado como extensão do corpo do homem, no século XXI, temos escutado sentidos que alocam o homem como extensão da máquina e como cyborg, corpo e tecnologia se fundindo, conforme Lemos (2010), autor do campo da cibercultura. Atentas a esse deslizamento de sentido de extensão à fusão, analisaremos a corporificação de objetos tecnológicos de conexão, na contemporaneidade, e a objetalização que perpassa sentidos de completude e de falha que incidem no corpo do sujeito em sua relação com “objetos próteses” (como Freud os chama em “Mal estar”) numa virada em que sujeito e corpo são convocados a ser peça da rede. Trabalharemos com os conceitos de sujeito, corpo e rede eletrônica, aos quais nos debruçaremos à luz de outros conceitos da Análise de Discurso (AD) inaugurada por Pêcheux, tais como memória e acontecimento; e, para esse momento, apresentaremos a análise de um recorte imagético e de uma formação discursiva retiradas da materialidade eletrônica, em que sentidos sobre corpo e internet entram em jogo. Abriremos questões sobre a patologização da conexão e o apagamento da polissemia do significante “peça” pela sua forma imperativa (“Peça.”). O que se pede na contemporaneidade? Que discurso é esse que se sustenta a suposta fusão?


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