A oralidade em textos escritos não se revela no simples fato de identificar formas lexicais, estruturas sintáticas ou outras ocorrências linguísticas que lembrem usos das interações faladas. Não se pode partir a esmo para o estudo da oralidade no texto escrito. É essencial que esse trabalho seja conduzido à luz de fundamentos teóricos que expliquem a construção dos sentidos nos textos. Os princípios de enunciação parecem dar conta, ao menos em boa parte, dessa necessidade. Sendo o texto o produto da enunciação, o enunciador projeta nele um cenário interativo que pode encenar uma interação próxima entre destinador-autor e destinatário-leitor, ou, então, pode estabelecer um distanciamento entre esses dois actantes. É a primeira interação, marcada pelas relações eu/você, aqui e agora, que caracteriza os textos marcados, em graus variados, por traços de oralidade. Os posts de blogs afinam inteiramente com esse cenário. Esses textos lembram mais uma conversa do que de um texto propriamente escrito. Por essa razão, apesar de medialmente escritos, são eles percebidos pelos usuários da língua como conceptualmente falados. Há muitos usos, lexicais e sintáticos, que são de uso corrente em ambos os meios de manifestação linguística, na fala e na escrita. Eles podem corroborar o caráter predominantemente oral de um texto, na medida em que estiveram no cenário interativo coerente que configura as relações de proximidade entre interlocutores. Em outro cenário, eles já não assumem essa função. Em suma, o estudo da oralidade dos textos escritos demanda uma percepção do texto como um todo, determinado pelas instâncias e categorias da enunciação que o determinam.
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