FUNCIONAMENTO LEXICAL: REFLEXÕES A PARTIR DE ANÁLISE DE DADOS NO CAMPO DAS AFASIAS Esta sessão coordenada de Neurolinguística integra três trabalhos que têm em comum o interesse por diferentes aspectos do funcionamento lexical - que envolve a complexa integração fonético/fonológica-semântico-sintática, além dos fatores pragmático-discursivos. Outro ponto de convergência é a opção pela metodologia qualitativa, tendo como lócus das pesquisas o campo da afasiologia. O primeiro trabalho compara a produção da morfologia livre (preposições, artigos, conjunções) e flexional (nominal e verbal) em dois casos de afasias considerados por Jakobson (1956) como opostos: um agramático e um jargonafásico. O segundo aborda a produção de parafasias semânticas. analisando dados de sujeitos fluentes e não-fluentes, em episódios dialógicos e o terceiro trata do fenômeno conhecido como TOT (tip of the tongue) – a palavra na ponta da língua – analisando dados no contexto das afasias e também relatos retrospectivos em um Blog. Essas três pesquisas são abrigadas pelo projeto intitulado Dificuldades para encontrar palavras e produção de parafasias nas afasias: inferências para o estudo do funcionamento linguístico-cognitivo (CNPq: Plataforma Lattes) e o objetivo da sessão é apresentar e discutir esses trabalhos que vimos desenvolvendo, à luz de uma abordagem sócio-cultural do funcionamento linguístico-cognitivo. Resumo #1Omissão e dificuldades de seleção de palavras funcionais e de morfologia flexional em enunciados de sujeitos afásicos - Introdução e marco teórico Omissão e dificuldades de seleção de palavras funcionais e de morfologia flexional em enunciados de sujeitos afásicos - Introdução e marco teórico: As formas clássicas de afasia – Broca/não-fluente/produção e Wernicke/fluente/compreensão – foram descritas por Jakobson (1956) como dificuldades de combinação, por um lado, e de seleção, por outro, relacionadas pelo autor a dois tipos principais de afasias: (i) agramatismo - caracterizado pela omissão de palavras funcionais e de morfologia flexional e (ii) jargonafasia - caracterizada pela substituição recorrente dessa morfologia (livre e “presa”/flexional) Objetivo: Este trabalho busca compreender melhor essas dificuldades –omissões ou substituições dessas categorias lexicais – subjacentes a vários tipos de afasias, mas que ocorrem de forma marcante no agramatismo e na jargonafasia, contribuindo para a pesquisa “Dificuldades para encontrar palavras e produção de parafasias nas afasias: inferências para o estudo do funcionamento linguístico-cognitivo” (CNPq). Metodologia: Analisamos quantitativamente e qualitativamente os enunciados produzidos por dois sujeitos afásicos que frequentam o CCA (Centro de Convivência de Afásicos)/IEL/UNICAMP, com os tipos de afasia considerados por Jakobson: (i) AL – senhor de 66 anos, com jargonafasia em decorrência de lesão bilateral posterior – e (ii) TR – senhora de 59 anos, com agramatismo decorrente de lesão fronto-parietal. Resultados: As análises (ainda parciais) evidenciam que TR não produz – mas compreende adequadamente – tanto palavras funcionais como a morfologia flexional – enquanto AL, em situações dialógicas, produz também enunciados telegráficos (com omissões de palavras funcionais), provavelmente como estratégia pragmática conversacional. Entretanto, estes são qualitativamente diferentes dos enunciados de TR. No momento atual da pesquisa, analisamos alterações progressivas em ambos os casos. TR evoluiu para fala telegráfica a partir de enunciados estereotipados. AJ, embora ainda jargonafásico, já apresenta melhora considerável no padrão de substituições. É relevante mencionar que atribuímos essas alterações – em ambos os casos - ao trabalho realizado no CCA. Resumo #2Sobre a seleção lexical e o fenômeno das palavras na ponta da língua (The Tip of the tongue phenomenon) Sobre a seleção lexical e o fenômeno das palavras na ponta da língua (The Tip of the tongue phenomenon) - Introdução: Conhecido na literatura como “tip of the tongue” (TOT), este fenômeno refere-se ao momento em que o sujeito procura uma palavra, acompanhado da sensação de que esta já vai surgir ou de que já lhe escapou, justificando a metáfora da palavra “na ponta da língua”. Marco teórico: Este trabalho propõe uma nova abordagem teórico-metodológica para os TOTs, posicionando-se criticamente frente às teorias que o reduzem a mera falha fonológica ou de acesso lexical, desconsiderando a natureza indissociável entre som e sentido que compõem a palavra – seus enlaces, na terminologia luriana. O trabalho se respalda, teoricamente, (i) na neurolinguística de orientação enunciativo-discursiva (Coudry, Novaes- Pinto), (ii) na neuropsicologia Luriana, sobretudo na concepção de Sistema Funcional Complexo (iii) nas reflexões de Jakobson, sobre o caráter artificial da separação entre os níveis linguísticos e (iv) na Filosofia da Linguagem de Bakhtin, com ênfase no conceito de enunciado como célula verbal. Objetivo: Propor uma abordagem não-dicotômica dos TOTs, que por sua vez corrobore a hipótese da não dissociação abstrata entre som e sentido no funcionamento e na produção da palavra em enunciados concretos. Metodologia: Após constatar que a quase totalidade de estudos sobre os TOTs é realizada nos paradigmas quantitativos, este estudo analisa qualitativamente a ocorrência de TOTs, em contextos naturais. Trata-se da análise microgenética de dois dados: um de episódio dialógico com sujeito afásico e outro de relato retrospectivo do Blog “As palavras na ponta da língua”. Conclusão: Ao postular uma hierarquia nos campos linguísticos, os modelos de acesso lexical criam uma ilusão de compartimentação da linguagem. Este estudo ressalta a importância de olhar para o léxico como um campo em que se mesclam características sonoras e semânticas (dentre outras) da palavra. Resumo #3Dificuldades de encontrar palavra e a produção de Parafasias: avaliação em episódios dialógicos Dificuldades de encontrar palavra e a produção de Parafasias: avaliação em episódios dialógicos - Introdução: Este trabalho, desenvolvido no âmbito da Neurolinguística enunciativo-discursiva (Coudry, 1986/1988, Novaes-Pinto, 1999, Souza-Cruz, 2013, dentre outros), discute questões teórico-metodológicas acerca das "parafasias semânticas" produzidas por sujeitos afásicos. Marco teórico: Este fenômeno, de alta frequência nas afasias, mas também presente na linguagem dos sujeitos não-afásicos, caracteriza-se pela palavra produzida no lugar de outra - a palavra-alvo. Tradicionalmente, classifica-se em: i) semântica (quando há uma relação semântica clara entre a palavra-alvo e a palavra produzida), (ii) lexical (quando não há uma relação semântica aparente) e (iii) literal (quando há semelhança sonora entre ambas). A literatura neuropsicológica relaciona a parafasia semântica às lesões posteriores e, portanto, às afasias fluentes, enquanto nas afasias não-fluentes predominariam as de natureza sonora. O objetivo deste trabalho é questionar esta afirmação e desenvolver a hipótese de que as parafasias semânticas estão presentes também de forma importante nas afasias não-fluentes. Em decorrência de maiores dificuldades de auto-correção e pela produção de enunciados telegráficos, nas afasias não-fluentes, torna-se mais difícil identificar uma parafasia semântica. Análises qualitativas de enunciados concretos, de cunho microgenético, são capazes de apontar evidências acerca dessas dificuldades e da natureza dessas parafasias. Questiona-se, neste trabalho, assim, a classificação tradicional das parafasias, bem como a metodologia que geralmente é utilizada para sua abordagem. Metodologia: Serão analisados dados de parafasias de sujeitos afásicos, extraídos de episódios dialógicos com sujeitos não-afásicos, ocorridas em sessões individuais ou coletivas do Grupo III do CCA (Centro de Convivência de Afásicos). Conclusões: As análises nos levam a concluir que as parafasias semânticas ocorrem em todos os tipos de afasias e que as análises qualitativas de enunciados produzidos em contextos de uso efetivo de linguagem dão visibilidade para as relações semânticas subjacentes e para a natureza das dificuldades dos sujeitos. | |
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