A correspondência entre Mário de Andrade e filólogos, gramáticos e literatos constitui-se como um arquivo onde se imprimem saberes linguísticos (AUROUX, 1992) sobre a língua no Brasil, em relação com o dizer sobre a escrita literária. Nas cartas com Pio Lourenço Corrêa, tio de Mário de Andrade, filólogo, fazendeiro e revisor dos manuscritos de Mário de Andrade, se atravessa uma discursividade sobre a língua no Brasil, assinalada por saberes linguísticos que circulavam então, a partir dos estudos histórico-comparativos e dos neo-gramáticos. Pela correspondência, Pio e Mário trocavam fichas de estudos das obras de Meillet, Said Ali, dentre outros, nas quais residem saberes sobre a filologia, a gramática e a linguística. Na confissão das cartas, está marcado também o dizer sobre a escrita literária no dizer sobre a língua no Brasil. A reflexão advém da base teórico-metodológica constituída no encontro da História das Ideias Linguísticas (AUROUX; ORLANDI) com a Análise de discurso (PÊCHEUX; ORLANDI). O objetivo, portanto, é analisar as discursividades sobre a língua no Brasil em Mário de Andrade, compreendido como um nome de autor que agrega discursos em tensão sobre a língua, constituindo um arquivo discursivo (PÊCHEUX, 2011; MARIANI, 2010; ROMÃO,2011). O recorte do arquivo discursivo (ORLANDI, 1984, 1991) consiste nas suas correspondências com Pio Lourenço Corrêa, em que, ao dizer sobre a escrita literária, comparece um discurso “sobre” (ORLANDI,1990; PETRI, 2004) a língua no Brasil. Trata-se de um discurso “sobre” atrelado ao funcionamento do nome de autor (FOUCAULT, 1992), categoria discursiva que produz um efeito de unidade, mas abriga diferentes posições discursivas (ORLANDI, 2007), que veiculam saberes linguísticos a partir de diversos lugares discursivos (ORLANDI, 2007; GRIGOLLETO, 2008). Esta comunicação advém das reflexões da tese de doutorado “Mário de Andrade, um arquivo de saberes sobre a língua no Brasil” (2014,UFF).
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