A relação memória-linguagem é tema amplamente discutido nas propostas cognitivistas, principalmente nos trabalhos filiados à Psicolinguística. Neste ponto de vista, distinguem-se diferentes memórias (semântica, fonológica, episódica, de procedimentos) para cada atividade linguística. A relação entre memória e linguagem é hierárquica e pode ser estabelecida pela seguinte ordem: cérebro-cognição/memória-linguagem. A partir disso, assume-se que dificuldades na memória podem ser inferidas pelas perturbações na linguagem. Este trabalho discute a relação memória-linguagem-sujeito a partir de outra perspectiva teórica, qual seja: filiada ao pensamento do estruturalismo europeu na Linguística (Saussure, Jakobson) e à Psicanálise (Freud, Lacan), desenvolvida no grupo de pesquisa “Aquisição, Patologias e Clínica de Linguagem”, coordenado por Lier-DeVitto e Arantes no LAEL/PUC-SP. O argumento deste trabalho parte do pressuposto que linguagem e memória não são funções cognitivas. Este argumento ganha força com a leitura de Freud, já que a linguagem e memória são postas lado a lado, sem hierarquia. A memória é-feita de linguagem, o que tem consequências teóricas e clínicas para a Clínica de Linguagem. Freud submete a memória ao funcionamento do aparelho – a memória é trilhamento - e põe em jogo a dupla função da linguagem, como assinalou Lacan (1959-60/1995). Assim, admite-se que o inconsciente tem propriedade de estrutura, como a linguagem e, também se dá ao encontro do sujeito com a realidade, como função comunicativa. Neste ponto, vemos com maior clareza, que o funcionamento psíquico é memória governada por uma estrutura de linguagem. Linguagem não é memória – Freud não autoriza esta leitura – mas é certo que esses domínios são “concomitantes dependentes” para utilizar uma expressão do próprio Freud em A afasia (quando ele ressignifica o paralelismo psicofísico de Jackson).
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