P10. Estudo da Aquisição da linguagem (Comunicações dentro de Projetos)

DIFERENÇAS INDIVIDUAIS E SINGULARIDADE NA AQUISIÇÃO E NA CLÍNICA DE LINGUAGEM.
MARIA FRANCISCA DE ANDRADE FERREIRA LIER-DEVITTO 1
1. PUC-SP - PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃOPAULO
f.lier@uol.com.br



As ciências humanas enfrentam, incessantemente, a interrogação sobre a heterogeneidade dos fatos/dados que reúnem em corpora para análise. O tema das diferenças individuais é uma de suas expressões mais notável - “diferenças” insistentes se erigem como barreiras à total negativização do sujeito, uma tendência que é típica do procedimento científico. Fazer questão das “diferenças individuais” é colocar-se numa zona de resistência à ortodoxia do discurso científico, que visa a um saber universal “que vale para todos”. Este ideal corresponde ao que Lacan (19xx) afirma corresponder à “civilização científica” (inaugurada no sec. XVII), à construção de um saber “que se liberou de sua relação com a verdade da enunciação”, ou seja, um saber que não se implica com a o sujeito-falante como “causa de sua verdade”. Falar é espaço de complicação porque envolve considerar a problemática da subjetividade e, portanto, a dimensão da não-coincidência entre falantes e entre o falante e sua língua dita materna. Em outras palavras, falar envolve a dimensão da “diferença”. Aquele que toma a palavra sempre ameaça com perturbação a consistência lógica de um enunciado. Diferenças individuais são notadas e a ciência tem como capturá-las, como criar classes aproximativas que são representadas enquanto tempos (e modos) variados de trajetória da criança na aquisição da linguagem, variação que pode ser apreendida até certo limite: aquele em diferenças esbarram na divisão clássica entre normalidade e patologia, que se apresenta como manifestação externa, como diferença excessiva que, como tal, é deslocada para a esfera das clínicas: “o sujeito aí comparece em negativo”, i.e., sob o signo de um sintoma. Abre-se, então, de forma inexorável a problemática da singularidade, daquilo que vai em direção oposta à regularidade, à homogeneidade, à heterogeneidade controlável. O singular não faz classe e se distancia da relação universal-particular-exceção, que abrange a questão das diferenças individuas.


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