S3. Análise do Discurso (Comunicações coordenadas)

O DISCURSO JORNALÍSTICO EM SEU FUNCIONAMENTO: DO SÉCULO XIX AOS DIAS ATUAIS
SILMARA CRISTINA DELA DA SILVA (silmaradela@gmail.com)
UFF - UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

Os trabalhos reunidos nesta sessão têm como foco a análise do discurso jornalístico em diferentes momentos históricos, à luz de um mesmo aparato teórico-metodológico: a Análise de Discurso proposta por Michel Pêcheux. Os corpora analisados são diversos: a prática da divulgação científica em meados do século XIX; a questão da República e da abolição nesse mesmo período; a temática da (in)felicidade, recorrente na mídia na atualidade. Contudo, o propósito das análises é um só: refletir acerca dos modos de constituição de sentidos na imprensa, pensar o discurso jornalístico em seu funcionamento.

Resumo #1

DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA E INSTITUCIONALIZAÇÃO DO SABER LINGUÍSTICO NO BRASIL OITOCENTISTA: UMA ANÁLISE DISCURSIVA DO PERIÓDICO “O VULGARISADOR”
Angela Corrêa Ferreira Baalbaki (angelabaalbaki@hotmail.com)

A presente pesquisa, fundamentada teoricamente e analiticamente nos conceitos e dispositivos advindos da escola francesa da Análise de Discurso, tem como objetivo principal averiguar como o conhecimento sobre as ciências da linguagem circulavam, ou seja, era socialmente divulgado em "O Vulgarisador" – um jornal destinado a divulgar “conhecimentos úteis”, publicado no Rio de Janeiro, entre os anos de 1877 a 1880. Também se busca analisar a constituição da linguística e do linguista, à época, assim como identificar as suas imagens discursivas construídas no periódico. Algumas perguntas orientaram análises, a saber: quais são as imagens discursivas construídas das ciências da linguagem? Qual imagem de leitor é produzida no jornal? Qual a imagem de cientista e de ciência se procura construir? Como compreender o político e a política de Estado inscritos nos sentidos da divulgação científica dos estudos da linguagem? A partir do batimento entre teoria e leitura do corpus empírico – essa sempre norteada pelas questões supracitadas – fez-se uma seleção dos textos que tematizavam a divulgação científica relacionada aos estudos da linguagem. Ao final dessa etapa, foram elencadas três edições da seção intitulada “Philologia Moderna”, escrita por Boaventura Plácido Lameira de Andrade, co-autor da Grammatica da Língua Portugueza para uso dos gymnasios, liceos e escolas normaes (1887). Em seguida, continuando a construção do corpus discursivo, foram recortadas sequências discursivas organizadas a partir de eixos temáticos. Por fim, nos resultados parciais, foi possível depreender, através das análises da materialidade discursiva, a imagem da linguística como a área de conhecimento que trata da evolução das línguas (entendidas como seres vivos) e tomar a seção “Philologia Moderna” como uma forma de instituir os estudos linguísticos no Brasil oitocentista.

Resumo #2

A REPÚBLICA E A ABOLIÇÃO DOS ESCRAVOS NA IMPRENSA BRASILEIRA DO SÉCULO XIX: O JORNAL CIDADE DO RIO
Giovanna G. Benedetto Flores (gbflores@gmail.com)

Esta pesquisa tem como proposta compreender como a imprensa contribuiu no processo de significação da república e abolição dos escravos produzidos nos jornais do final do século XIX. Nossa pesquisa tem como suporte teórico a Análise do Discurso, como proposto por Pêcheux (1988), produzindo gestos de interpretação que possibilitam compreender parte do funcionamento de uma época. Quando pensamos no processo histórico-social determinante dos sentidos de “abolição” e “república” nos periódicos brasileiros na segunda metade do século XIX, entendemos discursivamente a história, como proposto por Paul Henry (1984), para quem a historicidade é ligada à questão da linguagem e à do sujeito, contraponto ao conceito de historiografia como produtora de dados e de conteúdos, numa dimensão temporal expressa como cronologia e evolução. A partir da perspectiva discursiva, podemos pensar no discurso jornalístico no/pelo entrecruzamento da língua, da história e da sociedade. Ao mesmo tempo em que o discurso jornalístico produz um efeito de atuar como niveladora de sentidos, organizando filiações de sentido possíveis para um acontecimento, opera como referência do que vemos e onde projetamos imaginariamente nossas reais condições, atuando na institucionalização social de determinados sentidos, contribuindo na constituição do imaginário social. A nossa pesquisa tem como corpus o jornal Cidade do Rio, de José do Patrocínio, que circulou na Corte entre 1887 e 1903. A análise discursiva deste periódico é importante para compreendermos o modo de relação e produção de sentidos da mídia como processo politico afetado pelas condições sócio-históricas do Brasil no período que a imprensa se dividia entre monarquia/república e abolicionistas/escravocratas.

Resumo #3

INFORMAR, INTERPRETAR, OPINAR: O DISCURSO JORNALÍSTICO SOBRE A (IN)FELICIDADE
Fernanda Luzia Lunkes (flunkes@gmail.com)
Silmara Cristina Dela da Silva (silmaradela@gmail.com)

É clássica no campo do jornalismo a distinção entre textos informativos, interpretativos e opinativos. Tal distinção se constitui historicamente: a separação entre informação e opinião sustenta a prática jornalística a partir do século XIX, com reserva de espaços específicos em suas publicações para interpretação e opinião, e a consequente naturalização na imprensa do lugar da informação. Tendo como base o dispositivo teórico-analítico da Análise de Discurso proposta por Michel Pêcheux, nosso objetivo é analisar o deslizamento entre os gestos de informar, interpretar e opinar na constituição do discurso jornalístico em torno das noções de (in)felicidade e tristeza. Centramo-nos, assim, no chamado jornalismo em revista, constituindo o nosso corpus por publicações que circularam naquelas que são designadas como revistas semanais de informação. Diante da insistência da mídia nos dizeres sobre (in)felicidade, nos dias atuais, constatamos uma tensa relação de forças: de um lado, há discursividades que produzem um deslizamento na formação imaginária sobre felicidade, que de um afeto episódico passa a se inscrever enquanto verificável e quantificável, tal como no discurso publicitário. De outro lado, tais discursividades possibilitam que sejam produzidos efeitos de sentidos sobre determinados afetos, como a tristeza, que podem, por sua vez, deslizar para sentidos de uma patologização, considerando o relevante aumento no número de casos de depressão. Interrogar sobre esses processos de textualização no discurso jornalístico em seu funcionamento, possibilita-nos: i) compreender as relações que deslizam do chamado jornalismo informativo, pois, na produção de evidências de um determinado efeito, outros sentidos são colocados à margem pelos processos de silenciamento; ii) e contribuir aos debates que vêm sendo realizados em diversas áreas de conhecimento, tais como Análise de Discurso, Sociologia e Psicanálise, considerando, de nossa parte, que as produções de sentidos sobre (in)felicidade e tristeza são da ordem do político.


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