S14. Psicolinguística, Processamento linguístico e Aquisição da Linguagem  (Comunicações coordenadas)

DESENVOLVIMENTO BILÍNGUE BIMODAL: ESTUDOS LONGITUDINAIS
RONICE MULLER DE QUADROS (ronice.quadros@ufsc.br)
ufsc - Universidade federal de santa catarina

O Desenvolvimento Bilíngue Bimodal tem sido estudado por meio de estudos longitudinais, com crianças adquirindo uma língua de sinais e uma língua falada simultaneamente. Trazemos neste sessão coordenada a perspectiva mais teórica quando nos deparamos com a possibilidade de uma única pessoa produzir duas línguas ao mesmo tempo, uma vez que as modalidades para cada língua são independentes, bem como, os estudos com crianças entre 12 e 48 meses que apresentam dados interessantes sobre a constituição bilíngue e bimodal e explicações que podem contribuir para a compreensão do bilinguismo em geral.

Resumo #1

SÍNTESE LINGUÍSTICA NA AQUISIÇÃO DE BILÍNGUES BIMODAIS LIBRAS, PORTUGUÊS E INGLÊS L3: ORDEM DAS PALAVRAS, SOBREPOSIÇÃO E ALTERNÂNCIA DE LÍNGUAS
Ronice Müller de Quadros (ronice.quadros@ufsc.br)
Aline Nunes Sousa (aline.fortaleza.ce@gmail.com)

Para os bilíngues, ambas as línguas estão sempre ativadas; portanto, elas podem interagir uma com a outra de diversas formas, inclusive por meio dos fenômenos de transferência entre línguas. Propomos que esses fenômenos provenham da arquitetura da faculdade da linguagem como exemplos do que se chama de “síntese linguística” (Quadros et al, 2011). Neste trabalho, estamos aplicando uma versão modificada da visão minimalista da alternância de línguas de MacSwan (2000), desenvolvida por Lillo-Martin et al (2010). Nessa perspectiva, os bilíngues têm um conjunto de itens de vocabulário com seus traços marcados. A alternância de línguas resulta da enunciação de itens dos dois vocabulários, desde que os seus traços sejam satisfeitos. Da mesma forma, aplicamos este modelo ao fenômeno da sobreposição de línguas, no qual bilíngues bimodais produzem as duas línguas simultaneamente, por exemplo em crianças bilíngues bimodais (português e libras) e alternadamente em produções escritas de um grupo de surdos brasileiros que estava estudando inglês como terceira língua durante um ano, em um curso que focava a leitura e a escrita. As produções apresentam evidências de síntese linguística, tais como, ocorrências com a ordem do português ou da libras nas produções das crianças bilíngues bimodais e casos em que os alunos de L3 utilizam ora a ordem do português ora a ordem da Libras, ao invés da ordem do inglês, na escrita em inglês. No caso das crianças bilíngues bimodais foram observadas muitas ocorrências de sobreposição, uma vez que as línguas apresentam-se em modalidades diferentes. Quanto à alternância, percebemos ocorrências tanto no uso de morfemas funcionais quanto de morfemas lexicais entre inglês e português, na escrita em inglês. Portanto, nossos dados parecem trazer evidências que sustentam a teoria da síntese linguística.

Resumo #2

APONTAÇÃO EM BILÍNGUES BIMODAIS: PISTAS SOBRE O QUE É LINGUÍSTICO E O QUE É GESTUAL
Ronice Müller de Quadros (ronice.quadros@ufsc.br)
Janine Oliveira (janinemat@gmail.com), Karina Elis Christmann (karinachrist@gmail.com)

A apontação tem sido tema de debate entre os linguistas que analisam línguas de sinais. O ponto crucial está no fato de considerar as apontações referenciais como gramaticais nas línguas de sinais (Meier e Lillo-Martin 2010, Thompson et al. 2013). Isso tem sido contestado por alguns linguistas (Johnson, 2013) que afirmam que a apontação comporta-se como uma produção puramente gestual, exceto no caso de determinantes. Além disso, há controvérsias quanto a listagem dos pronomes no léxico, uma vez que as diferentes apontações não são formas específicas, mas apontam na direção dos seus referentes, não podendo ser listadas individualmente (Meier, 1990; Lillo-Martin & Klima, 1990). Diante dessas questões, fazemos uma análise a partir dos dados de crianças bilíngues bimodais, ou seja, crianças que estão adquirindo uma língua de sinais e uma língua falada simultaneamente, para analisar o comportamento das apontações realizadas quando produzem sinais e quando produzem a fala. O objetivo foi de identificar as diferenças no comportamento das apontações que pudessem indicar uma distribuição entre os usos gramatical e gestual. Os dados fazem parte dos estudos longitudinais de duas crianças ouvintes, filhas de pais surdos, EDU e IGOR, adquirindo as duas línguas. Fizemos uma análise utilizando o ELAN (Eudico Language Annotador), incluindo trilhas específicas para a classificação da apontação (pronome, demonstrativo, locativo, gesto, outro), a marcação de número na apontação (singular e plural), a definitude da apontação (definido ou indefinido). A partir das análises, constatamos que há uma distribuição distinta no uso das apontações entre as seções em que a língua alvo é a fala e aquelas em que a língua alvo é a Libras. Estas diferenças indicam que há usos gramaticais e gestuais das apontações.

Resumo #3

O IMPACTO DO INPUT NAS PRODUÇÕES DAS CRIANÇAS BILÍNGUE BIMODAL
Bruna Crescêncio Neves (neves.bruna29@gmail.com)
Ronice Müller de Quadros (ronice.quadros@ufsc.br), Bruna Sena Gomes (biancalibras2012@gmail.com)

Interessado nos estudos referentes ao bilinguismo bimodal (Língua Brasileira de Sinais e Português Brasileiro), este trabalho analisa a produção linguística de um ouvinte filho de pais surdos (codas), diante de diferentes interlocutores – monolíngue e bilíngue. Os dados analisados neste estudo fazem parte do Banco de Dados do Núcleo de Pesquisas de Aquisição de Línguas de Sinais (UFSC). Grosjean (1994) explica que diante de “falantes” monolíngues, os bilíngues adotam a língua de seu interlocutor e desativam quase que completamente as outras línguas. No modo bilíngue os falantes interagem entre si, e a escolha da língua é determinada por diferentes fatores, como a situação e função da interação e os sujeitos envolvidos e “uma vez escolhida a língua-base, os bilíngues podem trazer a outra língua (língua ‘convidada’ ou ‘encaixada’) para a conversação de várias maneiras” (GROSJEAN, 1994, p.164). Os resultados das análises mostraram que a criança bilíngue bimodal traz para a interação uma ou duas línguas, de acordo com o seu interlocutor. As ocorrências encontradas na pesquisa colaboram com as investigações que já foram realizadas por outros estudiosos (GROSJEAN, 1998; QUADROS et al, 2013) indicando a existência de diferentes modos (bilíngue e monolíngue) para um mesmo sujeito e ocorrência de sobreposição de línguas superior às alternâncias, característica comum aos bilíngues bimodais. Isso confirma o que Emmorey et al (2008) constataram em seus estudos com bilíngues bimodais, mostrando que eles não estão impedidos fisicamente de produzirem as duas línguas de modalidades diferentes faladas ou sinalizadas concomitantemente, por disponibilizarem de dois articuladores independentes.


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