QUESTÕES GRAMATICAIS E DE ENSINO EM PERSPECTIVA DISCURSIVA
A questão gramatical é um tema que tem suscitado muitas perspectivas de tratamento, desde a memorização e aplicação de regras em exercícios descontextualizados até o abandono dessas normas em função de uma expressão livre, sem a camisa de força das prescrições gramaticais, como prega um grupo de lingüistas libertários. Como os extremos são sempre problemáticos, o objetivo desta comunicação coordenada é discutir a gramática numa perspectiva discursiva. Resumo #1Gramática, sintaxe e estilo RESUMO: Esta comunicação discute questões de sintaxe e pontuação numa perspectiva dialógico-discursiva. Segundo Bakhtin e o Círculo, a gramática é um parâmetro necessário para a manutenção da identidade de uma língua. Entretanto não deve servir como uma norma aplicada aleatoriamente. Assim, o estudo do enunciado como “unidade real da comunicação discursiva” permite tratar de modo adequado a natureza das unidades linguísticas, próprias do sistema, tais como as orações em sua estruturação sintática no enunciado concreto, portanto em função de propostas enunciativas individuais, na língua efetivamente em uso. Nessa perspectiva, o objetivo é discutir as questões da estruturação sintática e da pontuação como recurso expressivo no gênero ficcional. O referencial teórico que embasa este trabalho é a concepção discursiva de estilo na perspectiva de Bakhtin e do Círculo, a partir das anotações didáticas publicadas sob o título Dialogic Origin and Dialogic Pedagogy of Grammar: Stylisctic in teaching russian language in secondary school (2004). As questões gramaticais, tais como, frase nominal, paralelismo sintático, inversão da ordem, pontuação são discutidas em seus efeitos de sentido, tendo em vista a proposta comunicativa do autor. Para cumprir essa proposta foi selecionado o conto de Guimarães Rosa “As margens da alegria” (1964). Pela análise, percebe-se que os recursos que a língua oferece são estética e eticamente explorados em função do tema, das peculiaridades da personagem e da proposta comunicativa do autor/narrador. Evidencia-se com essa análise que a escolha de uma determinada pontuação ou de uma frase nominal como possibilidades expressivas que a língua viva oferece não é feita aleatoriamente. Ela decorre de um projeto enunciativo do autor. Constitui, assim, um material enriquecedor no que tange à compreensão da norma e suas variantes estilísticas, em específico ao ensino da língua materna em sala de aula. PALAVRAS-CHAVE: discurso; sintaxe; pontuação; estilo. Resumo #2OS SINAIS DE PONTUAÇÃO NAS CAMPANHAS DA COCA-COLA: UMA ANÁLISE LINGUISTICO-DISCURSIVA RESUMO: Este trabalho tem como objetivo analisar o modo pelo qual os sinais de pontuação, em seu característico dinamismo, produzem diferentes efeitos de sentido em campanhas publicitárias. Em decorrência, esse estudo visa contribuir para o ensino e aprendizagem da pontuação, distinguindo-se do caráter prescritivo dos livros didáticos e manuais de gramática. O referencial teórico-metodológico adotado está calcado nos pressupostos bakhtinianos, principalmente o dialogismo constitutivo da linguagem. A partir da concepção bakhtiniana de linguagem, recorremos também aos conceitos de enunciado e de estilo. Segundo esta perspectiva, a constituição dialógica se dá no diálogo entre locutor e interlocutor; além disso, há também a inclusão de outras vozes na enunciação, causando desdobramentos no discurso. Para efeito de análise, selecionamos as campanhas da Coca-Cola de 2007, 2010 e 2012, todas elas voltadas para a questão da ecologia e sustentabilidade. A análise da materialidade linguística dos textos, ou seja, das marcas linguístico-discursivas e dos sinais de pontuação, nos permitiu evidenciar diferentes efeitos de sentido, diferentes mudanças de posicionamento de determinadas pontuações, considerando os aspectos interacionais da relação locutor e interlocutores. Diferentemente da proposta dos livros didáticos e dos manuais de gramática acerca da natureza meramente sintática para o emprego dos sinais de pontuação, a análise evidenciou que os sinais utilizados na Campanha da Coca-Cola revelam traços de subjetividade, bem como o dialogismo constitutivo da linguagem. Palavras-chave: sinais de pontuação, dialogismo, estilo, efeitos de sentidos Resumo #3ORAÇÕES RELATIVAS APOSITIVAS EM PERSPECTIVA DISCURSIVA RESUMO: As orações relativas são tradicionalmente classificadas em restritivas e explicativas (também apositivas ou não-restritivas). Essa classificação é mantida em gramáticas descritivas e pedagógicas servindo de base, inclusive, para as normas de emprego da vírgula. Tomada como inquestionável, é ilustrada com exemplos construídos – normalmente frases – como Os esquimós, que têm cabelos pretos, vivem em iglus e Os esquimós que têm cabelos pretos vivem em iglus. Mas, embora estabelecida, a visão dicotômica das orações relativas não é tão clara como gostariam os gramáticos de maneira geral. Como aponta Loock (2007, 2010, 2013), quando confrontada com dados reais, ela falha diante de casos que não se deixam explicar pela visão gramatical, não podendo ser categorizados inequivocamente. Considerando essa limitação, esta pesquisa busca verificar as funções que as orações relativas apositivas assumem em notícias científicas publicadas em três revistas de divulgação da ciência (Pesquisa-Fapesp, Galileu e Superinteressante), assumindo que, contrariamente à visão tradicional, a relativa apositiva, se não desempenha um papel preponderante na identificação referencial, assume funções essenciais no discurso. Uma dessas funções pode ser atrelada ao estado presumido do conhecimento do leitor, o que remete à noção de gênero de discurso - tal como o entende Bakhtin -, uma vez que, situados em contextos sócio-retóricos específicos, os gêneros incorporam "identidades sociais": quem fala e para quem fala. A análise do corpus, à luz da tipologia apresentada por Loock (2007, 2013), evidencia um predomínio da relativa apositiva de relevância, informacionalmente essencial para a construção dos sentidos do texto. Palavras-chave: relativas apositivas; funções discursivas; tipologia | |
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