S6. Filologia e Linguística Histórica  (Comunicações)

SOBRE A GÊNESE DA FORMA DE TRATAMENTO VOSSA MERCÊ NO PORTUGUÊS MEDIEVAL
LEONARDO LENNERTZ MARCOTULIO 1
1. UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro
leonardo.marcotulio@gmail.com



Na história do português, a gênese da forma de tratamento Vossa Mercê tem sido descrita por análises de cunho sociopragmático (Faraco 1996) que correlacionam fatores sociais, como a estrutura hierárquica da sociedade medieval portuguesa e a posição ocupada pelo rei, a mudanças linguísticas no paradigma das formas de tratamento. Sem desconsiderar a atuação de fatores externos, o objetivo deste trabalho é demonstrar como, em termos gramaticais, esse processo foi possível na gramática do português dos séculos XIV a XVI. A partir de uma perspectiva teórica formal (Roberts e Roussou 2003) aplicada a textos escritos dos séculos XIV ao XVI (Davies e Ferreira 2006), a gênese da forma de tratamento Vossa Mercê é aqui tratada como um processo de gramaticalização em que o DP possessivo Vossa Mercê é reanalisado como o DP pronominal Vossa Mercê. Em termos quantitativos, o comportamento de Vossa Mercê parece se afastar do comportamento dos outros sintagmas possessivos comuns do mesmo período. Os resultados sugerem que Vossa Mercê passa a fazer parte do quadro de tratamentos do português através da posição de sujeito, na passagem do século XV para o XVI. No plano teórico, a gramaticalização do sintagma Vossa Mercê envolve um processo de redução estrutural – [DP [D’ (a) [FP vossa [F’ [NumP [Num’ mercê [nP vossa [n’ mercê [NP mercê]]]]]]]]] > [DP [D’ vossa mercê]] – e de reanálise, levando em consideração os seguintes aspectos: (i) a dependência semântica do nome relacional mercê de entidades que apresentam o traço [+humano]; (ii) a presença, no interior do sintagma, de um item que codifica o traço gramatical de segunda pessoa, como o possessivo vossa; e (iii) a ambiguidade gerada na posição de sujeito em construções com verbos como saber, que atribuem papel temático de experienciador a constituintes que devem apresentar o traço [+humano].


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