S1. Análise de estruturas linguísticas - Sintaxe (Comunicações)

VERBOS DE REESTRUTURAÇÃO EM TENETEHÁRA (TUPÍ-GUARANÍ)
QUESLER FAGUNDES CAMARGOS 1
1. UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais
queslerc@yahoo.com.br



Considerando as inúmeras estruturas morfossintáticas possíveis nas línguas naturais, há várias construções descritas como predicado complexo. Na língua Tenetehára (família Tupí-Guaraní), tais configurações, as quais consistem de uma raiz verbal seguida por um morfema, são muito produtivas. As construções causativas, por exemplo, têm sido largamente investigadas em muitos estudos linguísticos. No entanto, interlinguisticamente, pouca atenção tem sido dada a estruturas cessativas e desiderativas, as quais serão examinadas detalhadamente neste trabalho. Inicialmente, investigamos as construções cessativas com ênfase principal no sufixo paw “terminar”. Este morfema é sufixado à raiz verbal conforme o exemplo abaixo:

(1) awa u-’u-paw kwez
homem 3-comer-terminar agora
“O homem terminou de comer agora”

Note que o predicado complexo acima apresenta alternativamente a configuração abaixo, em que o verbo ’u “comer” não se incorpora na predicação principal.

(2) awa u-paw u-’u kwez
homem 3-terminar 3-comer agora
“O homem terminou de comer agora”

Discutiremos ainda as predicações desiderativas, as quais envolvem os sufixos wer “desejar” e hez “desejar”, conforme os dados a seguir:

(3) i-mai-’u-hez tuwe teko
3-coisa-ingerir-querer ENF gente PL
“As pessoas queriam comer algo”

(4) i-ker-wer awa kury
3-dormir-querer homem agora
“O homem quer dormir agora”

A proposta desta comunicação é averiguar se a reestruturação se aplica ao Tenetehára. Esse fenômeno envolve a aplicação de regras sintáticas que desencadeiam a formação de predicado complexo, formando uma sequência verbal na estrutura de superfície (cf. Rosenbaum,1967; Postal, 1970, 1974; Jackendoff, 1972; Chomsky, 1973; Bach, 1979; Rizzi, 1982; Bresnan, 1972, 1982; Wurmbrand, 1999, 2001; Alexiadou & Anagnostopoulou, 1999; Miyagawa, 1987; Landau, 2003; Shibatani, 1978, 1978; Manzini, 1983; e muitos outros). Para tal, postulamos que os morfemas paw “terminar”, wer “desejar” e hez “desejar” possuem uma estrutura complexa no nível abstrato da representação. Para satisfazer esse objetivo, consideramos os seguintes diagnósticos: (i) o movimento do verbo encaixado para o núcleo da predicação principal; (ii) a cliticização do objeto do predicado encaixado em contexto de concordância verbal; e, por fim, (iii) o movimento longo do objeto resultando em sua incorporação.


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