S7. Linguística Ameríndia  (Comunicações)

CONSTRUÇÕES CAUSATIVAS E REFLEXIVAS NA LÍNGUA TENETEHÁRA (FAMÍLIA TUPÍ-GUARANÍ)
QUESLER FAGUNDES CAMARGOS 1, RICARDO CAMPOS DE CASTRO 1
1. UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais
queslerc@yahoo.com.br



Este trabalho tem o objetivo de oferecer uma análise descritiva e teórica das estruturas causativas e reflexivas na língua Tenetehára (família Tupí-Guaraní). Investigaremos, assim, o estatuto gramatical dos morfemas envolvidos nestes processos. Para isso, apresentaremos dados em que há a coocorrência de morfemas causativos e reflexivos, como se pode ver a seguir:

(1) u-mu-zek-mu-apyk-kar kuzàtài kwarerk a’e
3-CAUS-REFL-CAUS-sentar-CAUS menina menino ela
"A menina fez o menino se assentar” (evento causado = o menino se assentou)

(2) u-zek-mu-apyk-kar kuzàtàik kwarer ø-pe a’e
3-REFL-CAUS-sentar-CAUS menina menino REL-PSP ela
“A menina fez o menino assentá-la” (evento causado = o menino assentou a menina)

Note que a ordem de coocorrência dos prefixos {ze-}, {mu-} e {-kar} não é trivial: a disposição em que tais morfemas ocorrem reverbera nas duas leituras acima. Em termos descritivos, veja que o evento desencadeado pelo argumento externo baixo “o menino” recai, em (1), sobre ele mesmo e, em (2), sobre o argumento externo alto “a menina”.

A partir de dados como (1) e (2), o propósito é, em termos teóricos, verificar em que medida os afixos apresentados acima podem ser interpretados como a realização dos núcleos de vP e de VoiceP. Este trabalho acompanha Kratzer (1994, 1996) Chomsky (1995) e Pylkkänen (2008). Aventamos que os morfemas causativos {mu-} e {-kar} encabeçam o núcleo de vP, cujo complemento corresponde ao evento causado. Ademais, traremos evidências de que estes morfemas causativos instanciam vPs de natureza distinta, uma vez que os morfemas {mu-} e {-kar} são responsáveis pela causação direta e indireta, respectivamente (cf. Camargos, 2013). Por sua vez, o morfema reflexivo {ze-} é a realização fonológica do núcleo de VoiceP. Esta última proposta, segue a intuição de Schäfer (2008), de que a projeção VoiceP é a responsável pela alternância de voz ativa e reflexiva nas línguas naturais.


193