Os estudos sociolinguísticos, incluindo diversos trabalhos acerca das concordâncias nominal e verbal no português, frequentemente revelam padrões similares de estratificação social, estilística e linguística. A par da recorrência desses padrões, o presente estudo levanta a questão da coerência dialetal de indivíduos e agrupamentos sociais: falantes que tendem a empregar a variante não-padrão de uma variável também tendem a empregar as variantes não-padrão de outras ou, diferentemente, tais variáveis se encaixam de modo independente no sistema linguístico e social, de modo que um falante possa apresentar uma taxa alta de não-concordância nominal e uma taxa baixa de não-concordância verbal?
Tal questão foi analisada através da análise de covariação entre as concordâncias nominal (CN) e verbal de 1PP e 3PP (CV1PP e CV3PP) em uma amostra com 102 falantes paulistanos, estratificados de acordo com seu sexo/gênero, faixa etária, nível de escolaridade e região de residência. Realizaram-se inicialmente análises multivariadas com cada uma das variáveis no programa Rbrul, com a inclusão do falante no modelo estatístico como efeito aleatório (Baayen 2008, Johnson s/d). Com base tanto nas taxas de uso quanto nos pesos relativos de cada falante para as variantes não-padrão, calcularam-se coeficientes de correlação de Pearson (r) para cada par de variáveis (CN-CV1PP, CN-CV3PP e CV1PP-CV3PP). Os resultados revelam que os três pares de variáveis se correlacionam significativamente (p < 0,001): falantes que tendem à não-concordância verbal de 1PP também tendem à não-concordância de 3PP (r = 0,55), bem como à não-concordância nominal (r = 0,50); a correlação mais forte, entretanto, encontra-se entre o par CN-CV3PP (r = 0,75), o que pode ser indicativo do alto grau de estigmatização da não-concordância de 1PP na comunidade: mesmo que os falantes tendam a empregar as variantes não-padrão de CN e CV3PP, tal tendência não ocorre no mesmo grau para o uso de 1PP.
|