S15. Neurolinguística e Neurociências Aplicadas à Linguagem  (Comunicações coordenadas)

QUESTÕES SOBRE A METODOLOGIA NAS PESQUISAS EM NEUROLINGUÍSTICA
MIRIAN CAZAROTTI PACHECO (miriancpacheco@gmail.com)
UNICAMP - UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

Optamos, nesta sessão, pelo tema sobre a metodologia para desenvolver reflexões que tragam contribuições para as pesquisas na área da Neurolinguística. O primeiro trabalho discute os fundamentos da análise microgenética de episódios dialógicos com sujeitos afásicos. O segundo visa apresentar dados de sujeitos parkinsonianos que mostram diferenças nos resultados entre as análises quantitativas e qualitativas. O terceiro discute as relações entre os paradigmas gerativista e sócio-histórico-cultural, mobilizando reflexões da Historiografia Linguística e da História da Ciência.

Resumo #1

CONTRIBUIÇÕES DA ANÁLISE MICROGENÉTICA AOS ESTUDOS NEUROLINGUÍSTICOS
MIRIAN CAZAROTTI PACHECO (miriancpacheco@gmail.com)

Questões relativas à metodologia são um dos grandes desafios a se enfrentar no campo dos estudos neurolinguísticos, pois influenciam os recortes que fazemos dos fenômenos, as formulações de hipóteses e o acompanhamento terapêutico dos sujeitos cuja linguagem se encontra impactada por alguma patologia. É imprescindível que exista coerência entre o método e os princípios teóricos que orientam as pesquisas. A opção mais coerente com a perspectiva sócio-histórica, à qual nos filiamos, é a metodologia qualitativa, dentre as quais a de cunho microgenético, originada nos trabalhos vigotskinianos, que defendem que para se compreender um processo, é preciso retornar à origem do desenvolvimento de uma determinada estrutura – sua gênese. Aliado ao fato de que a análise é orientada para os detalhes das ações, para as interações e cenários socioculturais. Objetivo da apresentação: socializar o estudo que vem sendo realizado, em nível de pós-doutoramento, que visa analisar, por meio de investigação bibliográfica, as contribuições do paradigma Microgenético com as teorias que fundamentam as pesquisas no campo da Neurolinguística de orientação enunciativo-discursiva. Discussão: podemos afirmar que a forma de construção de dados nessas pesquisas – por meio de videogravação e transcrição dos episódios – focaliza a atenção a detalhes, o recorte de episódios interativos, um exame orientado para o funcionamento dos discursos, as relações intersubjetivas e as condições sociais da situação, resultando num relato minucioso dos acontecimentos. O objetivo é a explicação dos fenômenos investigados em detrimento da simples descrição. A microgênese é proposta com vista aos demais domínios genéticos que focalizam o funcionamento linguístico-cognitivo dos sujeitos em todas as dimensões (biológicas, sociais e históricas). Conclusão: a Análise Microgenética possibilita demonstrar que, a partir de dados singulares, podemos inferir sobre o funcionamento da linguagem e sua relação com outros processos cognitivos, tanto na normalidade quanto nas patologias.

Resumo #2

FENÔMENOS DISCURSIVOS NA RUPTURA DA AMARRAÇÃO DOS SIGNIFICANTES NA DOENÇA DE PARKINSON: UMA ANÁLISE QUALITATIVA E QUANTITATIVA
MAIRA CAMILLO ( mairacamillo09@gmail.com)

Neste estudo, em andamento, procuramos investigar as aproximações e os distanciamentos nos momentos de “ruptura da amarração dos significantes” na atividade enunciativo-discursiva de dois sujeitos parkinsonianos submetidos à cirurgia para controle do tremor e de dois sujeitos parkinsonianos sem submissão cirúrgica. O termo “amarração dos significantes” está ligado ao efeito de não ruptura na cadeia enunciativa nos momentos de coocorrência do enlace dos significantes nos eixos sintagmático e paradigmático. Em situação oposta, classificamos como “ruptura da amarração dos significantes”, os instantes em que o laço desses dois eixos provocaram efeitos de descontinuidade na linearidade discursiva, com a presença das marcas hesitativas. Nesses momentos, foram encontrados quatro funcionamentos discursivos com o controle da deriva e um funcionamento com o não-controle da deriva. Como objetivos da pesquisa, procuramos identificar: (a) frequência dos momentos de “ruptura da amarração dos significantes”; (b) quais as relações entre os elementos da cadeia discursiva com os funcionamentos; (c) em que medida os sujeitos com mesma patologia, mas diferentes quanto a interferência cirúrgica, distanciaram-se ou aproximaram-se discursivamente. Aspectos Metodológicos da pesquisa: os sujeitos de ambos os grupos apresentam mesma idade e sexo. Sessões de conversação foram gravadas e transcritas. Na análise dos dados, identificamos e contabilizamos as marcas hesitativas nas rupturas e, em seguida, realizamos um estudo qualitativo dessas marcas, visando compreender as relações entre a cadeia significante e os aspectos sócio-históricos evidenciados. Os dados quantitativos, embora ainda preliminares, já indicaram que os sujeitos parkinsonianos operados se aproximaram dos sujeitos não operados. No entanto, a análise qualitativa mostra que os dos grupos se distanciam. Em outras palavras, os mesmo sujeitos interagiram discursivamente de maneira diferente com os funcionamentos de controle e não-controle da deriva nas “rupturas da amarração dos significantes”.

Resumo #3

AS PESQUISAS EM NEUROLINGUÍSTICA: RELAÇÕES ENTRE OS PARADIGMAS GERATIVISTA E SÓCIO-HISTÓRICO-CULTURAL
AMANDA BASTOS AMORIM de AMORIM (amandabastos1987@gmail.com)

Introdução: Apresentaremos uma síntese de uma pesquisa historiográfica de base kuhniana sobre a constituição do paradigma gerativista dentro das pesquisas em Neurolinguística e como surgem os primeiros trabalhos de Coudry, a partir de meados da década de 80, fundando uma Neurolinguística de base sócio-histórico-cultural. Para tanto, destacaremos vantagens e limites metodológicos das duas abordagens – dado que são estes os aspectos que contribuem mais expressivamente para o que Kuhn denomina revoluções científicas, que se relacionam ao surgimento de paradigmas diferentes – e refletiremos sobre a maneira como a constituição de ambas leva ao momento de coexistência que observamos atualmente. Objetivos: (i) mobilizar reflexões da Historiografia Linguística e da História da Ciência para o campo específico da Neurolinguística; (ii) destacar as questões teóricas e metodológicas envolvidas nas pesquisas em Neurolinguística desenvolvidas a partir de bases gerativistas e sócio-histórico-culturais. Metodologia: Levantamento bibliográfico e análise de pesquisas em Neurolinguística, observando, nas mesmas, o aparato teórico, as metodologias e técnicas empregadas pelos pesquisadores, tanto de bases gerativistas quanto sócio-histórico-culturais, a fim de estabelecer relações entre o funcionamento da pesquisa em cada uma das abordagens e suas particularidades. Conclusões parciais: Observam-se diferenças não somente no campo teórico, mas também no campo metodológico e prático, com a adoção de técnicas distintas de observação e análise de dados, variando de acordo com a perspectiva adotada, os objetivos de cada pesquisa e o que cada uma se propõe a analisar. Atualmente, as pesquisas de bases gerativistas e de bases sócio-histórico-culturais estão em um momento de coexistência, em que se observa um crescimento da segunda por contingências históricas que, da mesma forma que influenciaram o surgimento e a sedimentação do Gerativismo, agora parecem também favorecer o crescimento de outras perspectivas.


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