S8. Linguística Aplicada  (Comunicações)

SELETAS E LIVROS DIDÁTICOS: A QUEM SERÁ QUE SE DESTINAM?
ELIZABETH MARCUSCHI 1
1. UFPE - Universidade Federal de Pernambuco
beth.marcuschi@gmail.com



À medida que a disciplina Língua Portuguesa foi se consolidando, nos primórdios do século XX, apareceram, no mercado editorial, obras como seletas, crestomatias e antologias de textos de leitura para serem utilizadas como apoio ao trabalho pedagógico organizado pelo professor. Por sua vez, no decorrer da segunda metade do século passado, em função das mudanças socioeconômicas ocorridas no país e das novas condições postas para o espaço pedagógico, o livro didático começa a agrupar, em torno de vários capítulos autônomos, os textos direcionados para leitura, as questões de compreensão sobre esses textos, as noções de gramática e as atividades que exploram os conhecimentos gramaticais, constituindo-se basicamente em aulas ou sequências de ensino prontas. O livro assume nesta época um formato bem próximo do que hoje conhecemos. Visto desta perspectiva, podemos afirmar que as obras direcionadas para o público escolar publicadas no decorrer do século passado constituem uma fonte de significativa relevância para a compreensão de como o interlocutor/leitor presumido pelos materiais didáticos foi se constituindo, modificando, reordenando e consolidando ao longo do século XX. Nesta comunicação, com base na “Apresentação” introdutória às obras didáticas, analisamos, desde uma perspectiva discursiva e sócio-histórica, como a função autor/editor de materiais didáticos de língua portuguesa do mencionado período concebem e caracterizam seus interlocutores e usuários potenciais (alunos e professores inseridos no espaço escolar). Na análise e discussão dessas questões, nos pautamos nas concepções de língua como atividade sociointerativa, de autor como função histórica (não calcada numa personalidade) e de leitor como interlocutor ativo. Essas concepções estão alicerçadas em teóricos, como: Miller, Marcuschi, Rojo, Possenti, dentre outros. Os dados investigados evidenciam que, as noções de interlocutor expressas ou subentendidas no discurso da “Apresentação” das obras didáticas agenciam e desvelam usuários cultural e socialmente situados.


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