Nestas últimas décadas, observamos o crescimento da migração e a intensificação da globalização que, favorecendo o contato entre culturas, trouxe e traz uma série de questões e desafios de convivência. Nossa pesquisa de doutorado visa justamente pensar essas questões por meio da análise materialista (PÊCHEUX, 2008 [1975]) do discurso multicultural. O que está em jogo e o que não está quando se diz multiculturalismo? O multiculturalismo é um acontecimento discursivo? Nossa hipótese é de que – contrariando a maior parte dos cientistas políticos, pedagogos e antropólogos defensores do multiculturalismo como “visão boa e desejável” – o multiculturalismo, enquanto acontecimento discursivo, não rompe com as redes de sentidos, mas sim é absorvido por uma formação discursiva dominante. Para esta apresentação, analisaremos o funcionamento e as condições de produção do discurso multicultural na Europa. Como corpus tomaremos charges que abordam a presença/ausência de imigrantes no continente e o enunciado “o multiculturalismo fracassou”, (re)produzido por diversos governantes europeus em 2010 e 2011. Esse movimento multicultural surgiu nos anos 1960 numa época de efervescência, questionamentos e reivindicações de direitos civis e combate às discriminações. Tal época de contestação, inclusive do que parecia ser óbvio, poderia induzir que o acontecimento do multiculturalismo romperia com uma memória do outro bastante profunda, produzindo outros sentidos sobre o outro, sobre o colonialismo e sobre a cultura, colocando o multiculturalismo como uma resistência à forma sujeito capitalista. Entretanto, em nossas primeiras análises não é isso que vemos. Vemos sua captura pela formação ideológica capitalista, a reprodução de sentidos e deslizes com efeitos de memória que já compareciam no discurso colonialista, mas na ilusão de igualdade ou mesmo da comemoração da diversidade. A contribuição final desta pesquisa é justamente discutir a resistência na materialidade do discurso e a forma sujeito capitalismo que parece tudo capturar e a todos interpelar.
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