P9. Historiografia Linguística (Comunicações dentro de Projetos)

A RELAÇÃO ENTRE CRISE INSTITUCIONAL E MUDANÇA DE PARADIGMA LINGUÍSTICO NO BRASIL OITOCENTISTA
RICARDO CAVALIERE 1
1. UFF - UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
cavaliere@oi.com.br



Este trabalho analisa os fatos sociopolíticos atinentes às crises institucionais brasileiras do século XIX, vinculando-os com os períodos de descontinuidade no campo da gramaticografia, de tal sorte que se avalie a hipótese de que os períodos de convulsão política impõem uma decorrente mudança do pensamento linguístico. O Brasil inicia em 1822 uma trajetória autônoma, politicamente desatrelada do domínio português, com a ingente tarefa de preservar sua unidade territorial e implementar o desenvolvimento social. Em 1931, a abdicação de Dom Pedro I lança o país numa crise institucional que transformaria o país em palco de intensa luta pelo poder político. Nessa primeira época de crise vêm a lume várias gramáticas inspiradas no modelo racionalista, entre elas as de Antonio Duarte da Costa e Felipe Conduru, as quais se fizeram anteceder somente por textos produzidos ainda na época colonial, especificamente o Epítome de gramática da língua portuguesa (1906), de Antonio de Morais Silva (1757-1824) e a Arte de gramatica portuguesa (1916), do Padre Inácio Felizardo Fortes (1785-1856). Mais tarde, já no segundo Império, mais um momento de grande crise institucional levaria o país à transformação de regime, com a deposição de Pedro II e a proclamação da República em 1889. É nesse período conturbado que se promove no Brasil uma mudança de rumos nos estudos linguísticos, com a implementação da Gramática Histórico-Comparativa como base da descrição do português. O texto inaugural desse novo período é a Gramática portuguesa (1881), de Júlio Ribeiro (1845-1890). Essa relação entre os dois momentos de grande crise institucional coincidentes com a significativa mudança no panorama gramaticográfico dá margem à aplicação na História do Brasil da hipotética relação entre períodos de crise institucional e descontinuidade no fluxo das ideias linguísticas.


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